07 novembro 2011

JULIO CESAR

* em um supermercado no fim de tarde de um domingo.

Cesar sai de casa quando percebe que o dia já se foi. A rua já está quase escura e ele corre pra espiar o restinho do dia e aproveitar que o mercado ainda está aberto. Precisa de água, açúcar, café, leite, chocolate, essas coisas que solteiros precisam pra passar um domingo. Ou o que ainda sobra dele.
Cesar anda feito barata tonta nos corredores do mercado, distraído, com fones no ouvido, ouvindo, sei lá, qualquer coisa, o importante é sair logo desse labirinto iluminado e movimentado.
Cesar esbarra em alguém. Um moço alto. Cesar olha pra cima e pede desculpas. JO moço alto nem percebe o que aconteceu. Mas alguma aconteceu. O moço alto continua procurando aquilo que precisa enquanto Cesar acredita que definitivamente acabou de encontrar tudo o que sempre procurou. 
Cesar persegue o moço discretamente entre as prateleiras do supermercado. Fingindo procurar mais alguma coisa. Qualquer coisa. Patético. Percebe que a situação ficou patética. Desiste de seguir esse moço alto. Vai pra fila do caixa. Pra enorme fila do caixa. Procura outra música, uma trilha pra esse instante. Algo melancólico sem dúvida. E quando entra a música estourada em seus ouvidos Cesar olha para trás e eis que se depara com quem? Sim, o moço alto. Disfarça o nervosismo, o quase constrangimento. Muda urgentemente a música e baixa o volume, não quer parecer piegas e exagerado. Quer parecer incrível, gostaria de ser percebido. Anda dois passos, empurra a cestinha de compras com o pé. Olha pras mãos do moço e vê que ele carrega um litro de água e chocolates.
Quem enfrentaria uma fila de supermercado num fim de domingo pra comprar somente água e chocolate senão uma pessoa sozinha?
A água - lembra Cesar.  
CESAR - Você pode guardar meu lugar um instante na fila?
MOÇO ALTO - Claro.
Cesar corre com o coração na boca pra buscar a água. Com pressa, não quer deixar o moço alto esperando nem que ele se sinta responsável pela cesta de compras de um desconhecido.
Cesar volta.
CESAR - Muito obrigado.
MOÇO ALTO - Não tem de que. (fala o moço com um sotaque carregado do interior)
É lindo o moço alto. Tímido. Menino grande e bem educado.
Sem assunto.
A fila anda lentamente. Irritantemente. Felizmente.
CESAR - Isso que é domingo!
MOÇO ALTO - Muita gente né?
CESAR - Esse supermercado é sempre assim. Cheio e desorganizado.
MOÇO ALTO - Poucos caixas disponíveis.
CESAR - E as únicas atendentes estão sempre de cara feia.
MOÇO ALTO - É sempre assim?
CESAR - Sempre. Você não é daqui?
MOÇO ALTO - Não! Sou do interior de São Paulo.
CESAR - E veio passear no Rio de Janeiro?
MOÇO ALTO - Vim prestar um concurso público. Acabei de voltar da prova.
CESAR - Deve estar cansado .
MOÇO ALTO - Um pouco. Passei o dia lá.
CESAR - Em que área você prestou o concurso?
MOÇO ALTO - Juiz Federal.
CESAR - Uau!
MOÇO ALTO - E você faz o que?
CESAR - Sou ator.
MOÇO ALTO - Uau!
Os dois riem timidamente. Cesar olha para todos os lados tentando disfarçar sua euforia. E parece que o moço alto faz o mesmo. A fila anda mais alguns passos.
MOÇO ALTO - Você mora aqui?
CESAR - Sim, venho do Sul, mas moro aqui.
MOÇO ALTO - E você gosta? Já se adaptou à cidade?
CESAR - Já me adaptei. Acho que sim. Estou me adaptando (ri) Ainda estranho muita coisa. As caras feias das caixas de supermercado, por exemplo, ainda me assustam muito. Mas a cidade é muito agradável. Livre. As pessoas vivem nas ruas. Nas calçadas, nos bares. O oposto pra mim que venho de uma cidade fria em que as pessoas costumam se encontrar sempre dentro de algum lugar. No fundo eu acho que esse é o motivo que deixam essas pessoas tão indispostas em nos atender bem. Mas enfim, eu gosto muito daqui. Você já conhecia o Rio de Janeiro?
MOÇO ALTO - É a segunda vez que venho, mas não posso dizer que conheço. A primeira vez eu vim num dia e voltei no outro e dessa vez igualmente, vim ontem, passei o dia de hoje na prova e já volto amanhã bem cedo. Tenho que trabalhar.
CESAR - Que pena. O Rio merece pelo menos uma semana.
MOÇO ALTO - É eu sei, mas ainda não posso.
CESAR - Ainda.
MOÇO ALTO - É. Ainda.
CESAR - Mas se passar nesse concurso, você virá.
MOÇO ALTO - Tomara.
CESAR - Você vai passar!
È claro que ele vai passar, ele é inteligente, ele usa óculos, é lindo, é alto, é o homem da vida de Cesar e não tem porque ele não passar. Eles se encontraram. Eles se encontraram. Eles se...  
A fila quase nem existe mais. Cesar é o próximo e está aflito. Tudo pode acabar. E como vai terminar essa conversa? A atendente o chama. Cesar levanta a cesta de compras do chão, olha pro fundo dos olhos do moço alto  e repete.
CESAR - Você vai passar!
O moço alto sorri aparentemente nervoso. Acho que também está um pouco aflito. Não sabe que atitude tomar. Que gesto fazer. Cesar se enrola pra guardar as mercadorias na mochila, em digitar a senha do cartão e todo atrapalhado até consegue fazer rir a caixa de cara feia do supermercado. Não há mais o que enrolar. O moço alto a essa altura já está pagando suas compras: a água e o chocolate. É preciso sair. Outro na fila quer ser atendido também.
CESAR - Bem... Muito prazer. Seu nome?
MOÇO ALTO - Julio.
CESAR - Cesar.
JULIO - Não. Só Julio.
CESAR - Eu me chamo Cesar.
JULIO - Ah! Sim, claro.
(riem)
CESAR - Tchau então. Muito prazer.
JULIO - Tchau. Muita sorte e sucesso.
CESAR - Sorte pra você também no concurso.
Cesar vai saindo do supermercado. Olha pra rua totalmente escura. É domingo. Nunca mais encontrará Julio. Provavelmente nunca mais. Nunca mais. Nunca mais? Como assim nunca mais? Cesar pára e finge que está escolhendo uma musica pra ouvir enquanto espera por Julio.
Cesar não pode deixar de fazer com que exista uma continuação pra esse encontro.

A REALIDADE TRANSPARENTE
CESAR - Julio, você está hospedado em um hotel?
JULIO - Sim.
CESAR - Está cansado né?
JULIO - Um pouco.
CESAR - É que eu pensei se você não queria tomar um chopp em alguma calçada pra aproveitar mais um pouquinho a cidade antes de ir embora? Sei lá.
JULIO - Claro! Eu quero sim.
CESAR - Quer mesmo?
JULIO - Quero!
CESAR - Eu só preciso ir até em casa pra me livrar desse peso.
JULIO - E eu preciso ir até o hotel deixar minhas compras também.
CESAR - Onde fica seu hotel?
JULIO - Ali (aponta) naquela rua.
CESAR - Ah é? A rua onde moro.
Os dois caminham juntos até a portaria do hotel.
JULIO - É aqui. Como faço te espero?
CESAR - Sim. Eu volto rapidinho.
JULIO - Quarto 506.
CESAR - 506? Que curioso é o número do meu prédio.
Cesar corre até sua casa. Deixa suas compras jogadas na cama, se olha no espelho, arruma o cabelo, passa mais perfume, escova os dentes tudo muito rápido. Respira fundo. Sorri. Está feliz. Desce e chega novamente na portaria do hotel e encontra Julio que já estava a sua espera.
JULIO - Está um pouco frio. Será que vamos mesmo tomar um chopp numa calçada? Ou será que você não gostaria de subir? Tenho água e chocolate pra oferecer. 
CESAR - Subir? Quero.
JULIO - Quer mesmo?
CESAR - Quero!
E sobem...
Pra que calçada? Pra que chopp? Pra que aproveitar a cidade só um instantinho no fim de um domingo? Pra que ir pra rua se dentro de algum lugar tudo pode ser melhor? Se eles têm muito que fazer, muito que se conhecer, muito quê. E depois, amanhã bem cedo Julio tem que ir embora. Trabalhar. Esperar o resultado do concurso. E Cesar vai ficar. Vai ficar esperando, torcendo, rezando, andando pelos corredores do supermercado procurando, procurando...
Se eles vão se encontrar outra vez? Não sei, não sabemos, eles não sabem, ninguém sabe. Ninguém sabe. Por enquanto vamos deixá-los a sós.

Andy Gercker
06.10.11
RJ

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