28 março 2012

as vezes eu ensaio minha morte.
eu tiro o volume da televisão e programo o aparelho no timer, no sleep, no desligamento automático, eu mesmo programo o tempo que preciso. fecho os olhos e apenas sinto a vibração da luz vinda da tela brigando ou brincando com a parede. e fico ali pensando nas coisas que eu gostaria de pensar antes de morrer. então de supetão a luz apaga. tudo acaba. acho que quando se morre é assim. pode ser que naquele momento você seja tomado por um frio violento, uma forte onda de gelo que atravessa seu corpo, mas que logo em seguida lhe desce um… um… um tesão da porra. e é como se você tivesse um orgasmo de proporções… astronômicas, inimagináveis, delirantes, mas que logo assim que você recupera os sentidos e percebe o que de fato aconteceu é que você conclui. ah sim, você morreu. e então simplesmente, sem grande esforço você adormece. 

andy g. 
b.peixoto/copacabana/rj 
28.03.12 bem tarde pra quem vai acordar cedo. 

18 março 2012

PEQUENO ESCÂNDALO NA ORDEM DAS COISAS

- Onde estão minhas fotos? Onde estão minhas fotos? Me diz, onde estão minhas fotos? Devolva, são minhas, eu as fotografei são minhas, devolva, por que essas gavetas não abrem? entregue minhas roupas preciso sair daqui. Onde estão minhas fotos? Não me encoste, não me fale, não me olhe, devolva minhas fotos, entregue minhas roupas. Sim, eu estou exageradamente desesperada, eu preciso sair daqui, estou ficando infeliz. Eu as tirei. São minhas. Por que você fez isso? Eu confiei em você. Eu só tinha você. E você sabia disso. Quem é você? Sai da minha frente. Eu não te conheço mais. Eu tenho nojo de você. Eu sinto raiva de você. Eu estou com saudades de você. Acende a luz. Me dê as chaves. Tire essa música. Devolva minhas fotos, eu as tirei não é você. Eu não quero ouvir nada. Eu sinto medo. Eu grito sim, me deixa. Entregue minhas roupas. Não me encosta. Para onde eu vou? Você quer saber para onde eu vou? Agora? Agora você quer saber para onde eu vou? Eu te amo. Abra a porta. Eu tenho medo de você. Foda-se minhas coisas. Não me olha. Por que você foi fazer isso? Por que você foi fazer isso comigo? Me diz. Olha para mim. Eu não te conheço mais, pode falar. Olha para mim. Não, não olha para mim, dói. Eu dormi por muito tempo? Me fala. Eu estou dormindo muito tempo? Há quanto tempo estou dormindo sem te ver, me diz porra! Você é tão lindo. Devolva minhas fotos, eu só as quero, me devolva eu quero ir embora. Não me encosta. Não quero ouvir. Por que você me machucou assim? Fala. Tira essa porcaria dessa musica. Acenda essa luz. Devolva minhas roupas. Entregue as fotos e as chaves. Eu te cansei? Eu fiz você passar vergonha? Eu sou pouco? Eu te amo tanto. Eu não me conhecia antes de você. Eu não existia antes de você. Para onde você foi? Alguém diz aquilo que eu não te disse? Alguém consegue ser mais feliz com você do que eu fui? Me diz. Grita. Me livra dessa culpa. Eu te amo. Você é tão lindo. Me beija. Aproveite que estou nua e me suja. Mais. No chão? Você quer que eu me deite no chão? No sofá? Você quer que eu suba no sofá? No balcão? Onde você quer? No banheiro? No tapete? Quer que eu volte para nossa cama e volte dormir? Onde você quer porra, me diz. Aumente a musica, deixe as luzes apagadas e me suje. Mais. Por que você não me quer mais? Não fale. Dói. Quer que eu volte dormir? Eu te deixo ser feliz no sonho. Estou me sentindo infeliz. Humilhada. Devolva minhas fotos, abra a merda da porta, não fale nada, me deixe desaparecer, entregue minhas roupas, por que essas gavetas não abrem? Eu te amo e sinto nojo de você. Eu sou pouco? Eu sou muito pouco? Eu te cansei? Eu estou gritando sim porque dói. Porque você me fez doer. Que cara de pateta você tem. Um bolha, você é um bolha que eu amo tanto seu bolha uma porra de uma bolha um tremendo filho de uma puta bolha que eu amo tanto. Estou, estou exageradamente desesperada, exageradamente perdida, exageradamente sozinha. Escuta. Escuta. Você esta ouvindo? Tem pessoas me ouvindo. Tem pessoas querendo descobrir o que você fez comigo. Entregue as chaves, abra a porta, conte para essas pessoas o que você fez comigo, o que você conseguiu fazer comigo. Conte seu porra, seu bolha. Ele já vai abrir, esperem. Ele já vai contar. Vamos. Estamos esperando. Eu para sair eles para ouvirem. Quer me sujar antes de sair? Me diz, você quer me sujar antes de eu sair? Você quer me sujar na frente deles? Vamos. Eu quero, eu quero que você me suje mais uma vez a ultima vez. Na frente de todos enquanto você fala, enquanto você grita, enquanto você se humilha, enquanto você se livra de mim você me suja mais uma vez a ultima vez. Abra a merda da porta. Tire essa musica. Devolva minhas fotos, eu as tirei, são minhas. Por que essas gavetas não abrem? Estou, estou completamente exageradamente infeliz. Você gosta dessas plantas? E desse vaso? Você acha pesado esse vaso? Você acha bonito e pesado esse vaso? Me fala porra. E essa vidraça você acha resistente? Não me encosta. Aumente essa musica. Acenda essa luz. E me veja. Nua pela ultima vez. Nua. Suja. Infeliz. Pouca. Você gosta do barulho de vidros? Ouça. Me diz, você gosta desse barulho de vidros? Não está ouvindo? Eu disse para tirar a musica. Você esta me vendo? Esta vendo o que você conseguiu fazer comigo? Eu te amo tanto. Espero que você encontre as chaves que você consiga abrir as gavetas, você vai precisar abrir as gavetas antes de abrir a porta e contar para todas essas pessoas o que você conseguiu fazer comigo. Esta sentindo esse vento? Desculpa pela vidraça, desculpa pelo vaso, desculpa pelas malditas plantas. Desculpa por ter me apaixonado por você. Desculpa por não ter conseguido ser mais que pouco. Desculpa por te fazer feliz enquanto eu me fazia feliz, enquanto eu me conhecia. Olhe para mim. Olhe para mim pela ultima vez. Nua. Suja. Infeliz. Pouca. Exageradamente infeliz... Desculpa. Aumente a musica... Cuide bem de minhas fotos... Estou indo para te esperar.   

- ...



Andy Gercker
05 Dezembro 2007

12 março 2012

chega um momento na vida que o mundo te exige uma decisão: ou você grita e joga tudo fora ou você cala. e esse silencio pode ser tão ou mais pesado que o peso que seria de ter jogado tudo para fora. voltar ao tempo não tem como. o melhor seria inverter. bem na real isso pode acontecer a qualquer instante. e a quem disso nem consegue entender, não se tem o que fazer nem o que dizer. uma hora os eixos se encontram num novo ciclo, quem sabe não acontece um reencontro? o tal realinhamento... tudo pode ser ou não. mas que o peso de jogar tudo fora é pesado, isso é.  


Andy Gercker 
12 de Março de 2012
B. Peixoto/Copacabana/RJ 


                                 A Poesia de Mauá. Desenho de criança. 

15 janeiro 2012


Ele poderia se chamar Egídio Thomás Bortolomeoti se essa foto fosse tirada em 1937.

Ilha de Superagui / PR
Janeiro 2012

IT COULD HAPPEN TO YOU



Nunca sei quem vai atender a porta que bato. O que pode ser visto como gentil pra você pra mim agora me sufoca. Expandir-me me sufoca. E dançar comigo mesmo nessa sala é tão gostoso. Um calmo tocar-me sem medos. À vontade. Refinada fruta com jeito de suco na taça entre os dedos, bailando. Sem intenções de falhar, só admirando esse outro lugar. Viajando esse outro lugar. Em outro lugar é o lugar que não quero estar depois de ter aprendido dançar. Só quero dançar... dançar... Não preciso mais compartilhar. A parada agora é comigo baby! Pode deixar que agora eu sei guiar.
andygercker.15janeiro2012.  

13 janeiro 2012

Quando a sorte sorri.

A sua descrição dizia: esperando a sorte sorrir.
E não é que sorriu?!
Eu escrevi imediatamente: a sorte sorriu!
Ele pergunta: sorriu pra quem?
Eu devolvo: com sorte, pra ambos.

Sorrimos...

Andy G. Jan/2012

04 dezembro 2011


Teatro Sta Isabel - (Recife/Pe)
Novembro 2011.

Porque você é solteiro...?

Olhe pra mim/Esse sou eu/E isso que você está vendo/Minha casa/Esse é um dos meus universos/Aqui tem muito de mim e se você prestar atenção irá perceber que eu me revelo nos detalhes/Além disso/Aqui dentro/De mim/Existe outro e gigantesco universo/Muito mais complexo e cheio de cores e formas e nuances e mistérios que se você quiser/Se você tiver o simples cuidado de me observar sendo/Irá facilmente notar os mínimos e múltiplos detalhes que fazem de mim/Ser o que sou/E talvez/Talvez assim/Você encontre a resposta pra sua pergunta/Se é que lhe importa/Se é que me importam/De qualquer maneira/Aquela porta/Aquela porta que você está vendo/Embora esteja encostada ela nunca esteve trancada/Percebe? Percebe? ... Percebe? Se/Sou solteiro/Se danço/Bebo e canto sozinho/Talvez/Talvez seja/Porque ninguém até hoje tenha sido atrevido o suficiente pra colocar sua mão na maçaneta e abrir essa porta que está somente encostada/Somente encostada. Entende?  Entende?  ... Entende?

(dança ouvindo Im sorry de Brenda Lee e olhando “praquele” que proferiu a pergunta)

Sobe música e vai baixando a luz.

... sorry.    

19 novembro 2011

TEXTO PRA VIDEOBOOK I


... textos que escrevi de presente pra minha amiga Manoela Reichmann


Porque você demorou tanto tempo pra chegar?
Eu já nem acreditava mais que isso pudesse acontecer
Te ver outra vez
Você não mudou muita coisa!
E eu? Mudei muito?
Voltei pro cabelo natural, você reparou?
Eu estou ficando mais natural
Ainda estou ... "

o texto completo você encontra em: 
https://sellfy.com/1195474823806915

 

TEXTO PRA VIDEOBOOK II


Não, nós não temos mais nada pra conversar.
Eu PRECISO te pedir um favor:
Não me procure mais.
Já passou o tempo
Estou falando isso porque realmente não existe mais a menor possibilidade
A menor hipótese de eu voltar ... "

o texto completo você encontra em:
https://sellfy.com/1195474823806915

 

07 novembro 2011

COM BATOM FUCCIA NA BOCA


Essa mancha eu estou te falando. Essa mancha. Ela me apareceu ontem, ou já era hoje? Enfim, meu fuso ficou muito confuso depois que me viciei nesses programas da Discovery Chanel. Eu estou com um probleminha de baratas aqui em casa não é? Já fiz de tudo pra me livrar dessas nojentas até já limpei a casa e nada. Aí outro dia eu estava reclamando pra um amigo contando das baratas e ele me disse que tem um produto pra matar pulgas que se chama botox e que se compra em casas, essas casas que vendem ração pra cachorro, comida de peixe, essas coisas. Ta. Ai voltando pra casa ontem a tarde, e era tarde mesmo porque lembro muito bem que foi depois do meu almoço e desse almoço eu não esquecerei tão cedo, porque a “menina” que foi almoçar comigo impressionou um pouco de mais os clientes da cantina que eu almoço todos os dias, acho que eu vou ter que dar um tempo de almoçar ali. Eu o convidei pra almoçar e ele foi vestido como quem vai pra jantar. Imagine, um negão de quase dois metros com batom fuccia na boca e umas plumas meio verde limão. Divina, mas um horror. Impossível esquecer esse almoço. Por isso lembro com clareza que era tarde quando eu passei em frente a uma dessas lojinhas que vendem essas comidinhas pra bichinhos. Eu estava de bicicleta, foi cinematográfica minha passagem por esse armazém. Vá imaginando. Eu, voltando daquele almoço fazendo centenas de caretas...

... e a saga continua...

JULIO CESAR

* em um supermercado no fim de tarde de um domingo.

Cesar sai de casa quando percebe que o dia já se foi. A rua já está quase escura e ele corre pra espiar o restinho do dia e aproveitar que o mercado ainda está aberto. Precisa de água, açúcar, café, leite, chocolate, essas coisas que solteiros precisam pra passar um domingo. Ou o que ainda sobra dele.
Cesar anda feito barata tonta nos corredores do mercado, distraído, com fones no ouvido, ouvindo, sei lá, qualquer coisa, o importante é sair logo desse labirinto iluminado e movimentado.
Cesar esbarra em alguém. Um moço alto. Cesar olha pra cima e pede desculpas. JO moço alto nem percebe o que aconteceu. Mas alguma aconteceu. O moço alto continua procurando aquilo que precisa enquanto Cesar acredita que definitivamente acabou de encontrar tudo o que sempre procurou. 
Cesar persegue o moço discretamente entre as prateleiras do supermercado. Fingindo procurar mais alguma coisa. Qualquer coisa. Patético. Percebe que a situação ficou patética. Desiste de seguir esse moço alto. Vai pra fila do caixa. Pra enorme fila do caixa. Procura outra música, uma trilha pra esse instante. Algo melancólico sem dúvida. E quando entra a música estourada em seus ouvidos Cesar olha para trás e eis que se depara com quem? Sim, o moço alto. Disfarça o nervosismo, o quase constrangimento. Muda urgentemente a música e baixa o volume, não quer parecer piegas e exagerado. Quer parecer incrível, gostaria de ser percebido. Anda dois passos, empurra a cestinha de compras com o pé. Olha pras mãos do moço e vê que ele carrega um litro de água e chocolates.
Quem enfrentaria uma fila de supermercado num fim de domingo pra comprar somente água e chocolate senão uma pessoa sozinha?
A água - lembra Cesar.  
CESAR - Você pode guardar meu lugar um instante na fila?
MOÇO ALTO - Claro.
Cesar corre com o coração na boca pra buscar a água. Com pressa, não quer deixar o moço alto esperando nem que ele se sinta responsável pela cesta de compras de um desconhecido.
Cesar volta.
CESAR - Muito obrigado.
MOÇO ALTO - Não tem de que. (fala o moço com um sotaque carregado do interior)
É lindo o moço alto. Tímido. Menino grande e bem educado.
Sem assunto.
A fila anda lentamente. Irritantemente. Felizmente.
CESAR - Isso que é domingo!
MOÇO ALTO - Muita gente né?
CESAR - Esse supermercado é sempre assim. Cheio e desorganizado.
MOÇO ALTO - Poucos caixas disponíveis.
CESAR - E as únicas atendentes estão sempre de cara feia.
MOÇO ALTO - É sempre assim?
CESAR - Sempre. Você não é daqui?
MOÇO ALTO - Não! Sou do interior de São Paulo.
CESAR - E veio passear no Rio de Janeiro?
MOÇO ALTO - Vim prestar um concurso público. Acabei de voltar da prova.
CESAR - Deve estar cansado .
MOÇO ALTO - Um pouco. Passei o dia lá.
CESAR - Em que área você prestou o concurso?
MOÇO ALTO - Juiz Federal.
CESAR - Uau!
MOÇO ALTO - E você faz o que?
CESAR - Sou ator.
MOÇO ALTO - Uau!
Os dois riem timidamente. Cesar olha para todos os lados tentando disfarçar sua euforia. E parece que o moço alto faz o mesmo. A fila anda mais alguns passos.
MOÇO ALTO - Você mora aqui?
CESAR - Sim, venho do Sul, mas moro aqui.
MOÇO ALTO - E você gosta? Já se adaptou à cidade?
CESAR - Já me adaptei. Acho que sim. Estou me adaptando (ri) Ainda estranho muita coisa. As caras feias das caixas de supermercado, por exemplo, ainda me assustam muito. Mas a cidade é muito agradável. Livre. As pessoas vivem nas ruas. Nas calçadas, nos bares. O oposto pra mim que venho de uma cidade fria em que as pessoas costumam se encontrar sempre dentro de algum lugar. No fundo eu acho que esse é o motivo que deixam essas pessoas tão indispostas em nos atender bem. Mas enfim, eu gosto muito daqui. Você já conhecia o Rio de Janeiro?
MOÇO ALTO - É a segunda vez que venho, mas não posso dizer que conheço. A primeira vez eu vim num dia e voltei no outro e dessa vez igualmente, vim ontem, passei o dia de hoje na prova e já volto amanhã bem cedo. Tenho que trabalhar.
CESAR - Que pena. O Rio merece pelo menos uma semana.
MOÇO ALTO - É eu sei, mas ainda não posso.
CESAR - Ainda.
MOÇO ALTO - É. Ainda.
CESAR - Mas se passar nesse concurso, você virá.
MOÇO ALTO - Tomara.
CESAR - Você vai passar!
È claro que ele vai passar, ele é inteligente, ele usa óculos, é lindo, é alto, é o homem da vida de Cesar e não tem porque ele não passar. Eles se encontraram. Eles se encontraram. Eles se...  
A fila quase nem existe mais. Cesar é o próximo e está aflito. Tudo pode acabar. E como vai terminar essa conversa? A atendente o chama. Cesar levanta a cesta de compras do chão, olha pro fundo dos olhos do moço alto  e repete.
CESAR - Você vai passar!
O moço alto sorri aparentemente nervoso. Acho que também está um pouco aflito. Não sabe que atitude tomar. Que gesto fazer. Cesar se enrola pra guardar as mercadorias na mochila, em digitar a senha do cartão e todo atrapalhado até consegue fazer rir a caixa de cara feia do supermercado. Não há mais o que enrolar. O moço alto a essa altura já está pagando suas compras: a água e o chocolate. É preciso sair. Outro na fila quer ser atendido também.
CESAR - Bem... Muito prazer. Seu nome?
MOÇO ALTO - Julio.
CESAR - Cesar.
JULIO - Não. Só Julio.
CESAR - Eu me chamo Cesar.
JULIO - Ah! Sim, claro.
(riem)
CESAR - Tchau então. Muito prazer.
JULIO - Tchau. Muita sorte e sucesso.
CESAR - Sorte pra você também no concurso.
Cesar vai saindo do supermercado. Olha pra rua totalmente escura. É domingo. Nunca mais encontrará Julio. Provavelmente nunca mais. Nunca mais. Nunca mais? Como assim nunca mais? Cesar pára e finge que está escolhendo uma musica pra ouvir enquanto espera por Julio.
Cesar não pode deixar de fazer com que exista uma continuação pra esse encontro.

A REALIDADE TRANSPARENTE
CESAR - Julio, você está hospedado em um hotel?
JULIO - Sim.
CESAR - Está cansado né?
JULIO - Um pouco.
CESAR - É que eu pensei se você não queria tomar um chopp em alguma calçada pra aproveitar mais um pouquinho a cidade antes de ir embora? Sei lá.
JULIO - Claro! Eu quero sim.
CESAR - Quer mesmo?
JULIO - Quero!
CESAR - Eu só preciso ir até em casa pra me livrar desse peso.
JULIO - E eu preciso ir até o hotel deixar minhas compras também.
CESAR - Onde fica seu hotel?
JULIO - Ali (aponta) naquela rua.
CESAR - Ah é? A rua onde moro.
Os dois caminham juntos até a portaria do hotel.
JULIO - É aqui. Como faço te espero?
CESAR - Sim. Eu volto rapidinho.
JULIO - Quarto 506.
CESAR - 506? Que curioso é o número do meu prédio.
Cesar corre até sua casa. Deixa suas compras jogadas na cama, se olha no espelho, arruma o cabelo, passa mais perfume, escova os dentes tudo muito rápido. Respira fundo. Sorri. Está feliz. Desce e chega novamente na portaria do hotel e encontra Julio que já estava a sua espera.
JULIO - Está um pouco frio. Será que vamos mesmo tomar um chopp numa calçada? Ou será que você não gostaria de subir? Tenho água e chocolate pra oferecer. 
CESAR - Subir? Quero.
JULIO - Quer mesmo?
CESAR - Quero!
E sobem...
Pra que calçada? Pra que chopp? Pra que aproveitar a cidade só um instantinho no fim de um domingo? Pra que ir pra rua se dentro de algum lugar tudo pode ser melhor? Se eles têm muito que fazer, muito que se conhecer, muito quê. E depois, amanhã bem cedo Julio tem que ir embora. Trabalhar. Esperar o resultado do concurso. E Cesar vai ficar. Vai ficar esperando, torcendo, rezando, andando pelos corredores do supermercado procurando, procurando...
Se eles vão se encontrar outra vez? Não sei, não sabemos, eles não sabem, ninguém sabe. Ninguém sabe. Por enquanto vamos deixá-los a sós.

Andy Gercker
06.10.11
RJ

03 novembro 2011

PEQUENO ESCÂNDALO NA ORDEM DAS COISAS


Poltrona. Tapete preto. Livros empilhados e no topo um abajur. Talvez um fundo. Não importa. É um show. Luz vai entrando aos poucos. Entra a música Know How de King of Convenience. Ele dubla perfeitamente. Está no seu show. Tem um estilo todo próprio e peculiar. Em cada intervalo na letra da musica ele chora. E assim segue, dublando e chorando. Triste. Entra a voz de Feist e é como se entrasse uma Deusa cantando. Uma voz de querubim vindo do além. Cantam juntos e tudo à sua volta vai ficando milagrosamente mais feliz mais suportável. Dançam. Riem. Ele já não chora mais. Contagia a platéia puxando palmas. Ao fim da música ele agradece solenemente como um artista.

Senta na poltrona.

Luz baixa. É outro tempo. Outra cena. Ele recostado na poltrona olha suave para a platéia, respirando fundo. Acalmando-se. Entra música I Just Can`t Stop Loving You de Michael Jackson. Ele dubla essa também, mas de maneira afeminada, comicamente. Joga o cabelo. Faz coreografia. Ela surge no lado de fora do tapete preto com um maço de flores do campo nas mãos. Permanece parada. Ele a vê, mas continua sua relação com a platéia em sua performance. Ele dança de maneira competente, fazendo passos de hip hop no auge da música. Dá um show! Ela praticamente imóvel. Apenas poucas e indefinidas reações. Encerra a música. Ele a encara. Ela estica os braços oferecendo as flores. Terno.

ELA – Você continua adorável.

... e a história toma seu rumo.

Andy Gercker
RJ 02.11.11



  
     

30 outubro 2011

ouve.
você escuta alguma coisa?
não né?!
esse silencio se chama domingo.
se lá fora nada se ouve
aqui dentro nunca deixa de ser domingo.   

23 outubro 2011

TIPO CINEMA

Vovô e neto estão sentados frente a frente numa sala atemporal.
Silêncio.
Vovô entrega um presente ao neto.
Singelo.
Neto recebe o presente e sorri muito levemente. Emocionado.
Silêncio.
Vovô muito sereno. Sem achaques. É um homem muito vivido.
Neto abre o presente.
Música.
Neto chora. Chora muito. Ora ri. Ora chora ainda com mais emoção.
A música é triste. Ou linda. Ou uma gaita de boca.
Não se vê o presente nas mãos do neto.
Vovô continua sereno. Imóvel. Observa o neto.
Neto está vestido de maneira muito urbana. Jeans. All Star. Talvez um colete.  
Quem sabe até lápis preto nos olhos. Quem sabe. Não sei.
Close no presente que o neto acabou de receber. Um suéter. Novo, porém roupa típica de um idoso. Marrom talvez. Feio.
Neto segurando as lágrimas olha para o avô e um tanto envergonhado e muito triste diz:
- o senhor NÃO me conhece né vô?
Música sobe.
Vovô segura as mãos do neto. Olham-se profundamente.
É tudo muito lento. Melancólico.
Um piano.
Neto descansa sua cabeça no colo do avô e chora mais. Recebe um carinho.
...
Entra na sala uma mulher que fala muito e sem parar.
Ela gesticula faz caras caretas e nem percebe o que estava acontecendo na sala.
Outro tom.
Mulher:
- ainda bem que você chegou sua mãe já estava ficando preocupada. Também depois daquele acidente de ontem na estrada que ninguém mais fala em outra coisa. A sua mãe ficou rezando: ai tomara que nada aconteça na viagem do meu filho até aqui. Ai minha Nossa Senhora Aparecida ilumina o caminho da minha criança; ela pensa que você ainda é uma criança; Isso me cansa. Aliás, a sua mãe anda me cansando. A hora que eu te contar todas as coisas que ela anda aprontando por aqui, você vai ficar envergonhado da mãe que tem...
Mulher continua falando sem parar. Música sobe e ela continua gesticulando fazendo suas caras e bocas.
Corte na música e mulher fala:
- escuta, onde será que sua filha costuma guardar as facas?  
Neto e avô a ignoram e continuam se olhando profundamente.
Avô segura o suéter. Acaricia. Entrega para o neto e diz:
- É. Talvez eu não te conheça, mas eu SEI que você vai sentir frio. Todos nós sentimos algum dia. E eu sinto muito.
O neto ri. Fala:
- obrigado vô, tem razão. Tem razão. Eu vou sentir frio. Obrigado vô. Obrigado.

... lá fora tudo fica muito muito claro! 

Andy Gercker 23.10.11 RJ


(Vídeo) Goodbye by Andy G.

26 setembro 2011

ESCADARIAS


Com seus úmidos cabelos rigorosamente alinhados para o sul de sua cabeça, descia melindrosamente os degraus da escadaria de madeira do antigo e sombrio casarão. Descobrindo pé após pé o que há muito havia assistido: o interior de sua casa. Tinha a sensação de que caminhava ao precipício, mas não abandonava o habitual sorriso de escárnio nos lábios trêmulos. Infantil. Reconhecia vagamente nas telas das paredes um rosto familiar e falecido já esfarelado, embora, sem conseguir recuperar qualquer lapso de lembranças referente ao nome da imagem doentia, de mulher pintada de húmus por algum artista devasso da provável época. Passou algum instante frente à imagem lúgubre e tornou a descer as escadarias, analisando a louça também exposta nas paredes, eram pratos, sopeiras, colheres de prata e guardanapos bordados com as iniciais de sua identidade. Levava a mão até o queixo tentando em vão desvendar o mistério. A cada degrau descido era como se a escadaria fosse aumentando gradativamente para os fundos dos pés. Prolongando uma estranha lembrança. Formando uma imagem angustiante da previsível jornada que enfrentaria até chegar ao afastado término da descida. Trazia nas mãos seu chapéu de abas flexíveis amareladas do tempo e ao braço escorregava seu inseparável casaco reportado. Faltava-lhe uma bengala, que provavelmente havia deixado junto as suas fotografias em cima da cama. Abruptamente livrou-se dos pertences que carregava nos bolsos e nas caixas empilhadas em seu quarto e invadiu o corredor decidido explorar o andar inferior de sua casa. Não conseguia lembrar de quando havia sido condenado à solidão no terrível espaço cinza que cresceu sem ver as vozes que ouvia. No corrimão sentia um cheiro de esquecimento e esparramava os dedos confiante e persistente, acompanhando as sinuosas curvas da madeira seca presa aos balaústres talhados também com as iniciais de seu nome. Ou com o que supunha que fosse seu nome. Trajava uma calça de cor preta que encalorava suas pernas e uma camisa de botões toscos costuradas de maneira amadora e sobre ela um suspensório com cor de palha fazendo combinação com seu chapéu. Sentia suas frontes molhadas de suor. Encostou-se junto à parede para descansar seu corpo num breve tempo até ser desperto por uma lufada de espíritos zombeteiros com aroma de saudade. Mesmo sendo prazeroso escapou numa gambeta até alcançar mais alguns degraus abaixo. Livre do susto olhou para cima na esperança tardia de rever a confusa imagem que o atropelou. E descia agora trazendo a cisma esquizofrênica do encontro rápido e pavoroso. Atordoado e cansado insistia em chegar até o plano inferior do casarão para reconhecer o que fora impedido de viver. De repente começou a ouvir um delicado dedilhar, sem força, docemente, uma melodia de Ravel em piano e soube de imediato reconhecer a canção. Sorriu. Podia esperar vida logo mais, e ao invés de descer desenfreado para se aproximar do instrumentista, mergulhou num silencioso e feliz devaneio regendo um balé de dedos no ar. A música o acalmava enfim, ainda faltava muito, sabia. Embalado pelo clássico encanto sonoro descia ainda mais, observando a decoração das paredes. A infinita escadaria era cercada de paredes. Deteve-se um instante em frente a uma ilustração que lembrava o álbum 20 poemas de Amor Y Una Canción Desesperada de Pablo Neruda e entristeceu-se com os olhos azuis e aflitos da figura. Um pouco mais para a esquerda estava uma gigante réplica de O canto da mesa de Fantin-Latour onde o pintor representou Verlaine ao lado de Rimbaud ainda jovem e esforçou-se para decifrar o enigma daquelas obras, resmungou baixinho: Romances sans paroles. Seguiu seu percurso obstinado sem se importar com a Princesa Camundongo também exposta na parede até que sentiu esmagar cacos de vidro com suas botas grosseiras, eram lascas de taças quebradas borradas de vinho seco ou sangue. A partir desse momento começou a perceber que os degraus eram forrados por um empoeirado e puído tapete, talvez e provavelmente, estivesse chegando até a sala. Chamou sua atenção o extraordinário lustre no alto da escadaria com várias lâmpadas apagadas e a ausência de alguns pingentes que formariam um respeitoso girassol. Um tanto burguês demais pensou, mas de grande impacto visual sem dúvida. Alegrou-se instantaneamente ao reconhecer uma fotografia numa pequena moldura, idêntica a uma outra que havia deixado junto à bengala em sua cama. Na fotografia estava uma nostálgica família sentada num banco de jardim, sorrindo pateticamente para a câmera. Tratava-se de um velho senhor ao lado de uma senhora, que o fez lembrar da esfarelada imagem encontrada no alto da escadaria e ainda mais uma criança vestida com suspensórios e botinas, muito semelhante ao que vestia, embora em tamanho menor e, ao fundo, um casarão que bem poderia ser o mesmo que escondia essas intermináveis escadarias. É certo que ficaria durante muito tempo contemplando a fotografia não fosse o cessar inesperado do piano. Desceu afoito e com pressa para diminuir a distância entre onde estava e a sala de onde certamente seria o fim dessa viagem sombria de recordações adormecidas ou esquecidas ou ainda desconhecida. Pulava dois em dois degraus, para amenizar o tormento e apressava-se desesperado até que o piano voltou a tocar e mais uma vez soube identificar a melodia. Uma melodia de Satie dessa vez. A música tinha um efeito tranqüilizador que o fez recuperar um pouco de ar e seguir com a descida indefinida. A mancha de vinho seco ou sangue ia ficando cada vez mais evidente, em quantidade visivelmente assustadora. Era a confirmação de que havia acontecido uma terrível tragédia e mesmo sem saber definir de quem era o sangue ou quem havia desperdiçado tanta bebida, prosseguiu seu caminho irritado com o término imprevisível. Tanto desceu que uma claridade foi se aproximando numa anunciação de liberdade. Exausto e com muita idade soube reduzir a velocidade para aproveitar os últimos degraus, extasiado com a canção forte do piano explodindo em seu peito, parou. Voltou-se para trás e numa tentativa de registrar o inexplicável mistério fechou os olhos profundamente e chorou. Seu quarto, seu exílio deixado lá no alto era passado. O fim do medo. A covardia rompida. Um quase relembrar de fatos perdidos na caixa branca de sua memória. O rompimento definitivo da exclusão. Do abandono. Desceu tanto para subir novamente, em outras circunstâncias, em outras escadarias. De uma outra e nova vida. Abriu lentamente os olhos cobertos de lágrimas e calculadamente virou-se para saltar o último degrau. Alcançou a sala, enorme. Com seus móveis escondidos por lençóis, exceto o piano que descoberto e de tampa fechada continuava tocando sem que houvesse um instrumentista. Sorriu. Não fez questão de entender. Sans paroles... Caminhou pé por pé, coreografando com os dedos no ar Mozart ou Chopin até uma majestosa porta. Trouxe até seu peito as fechaduras e finalmente reconheceu a rua. No jardim estava o banco todo desfeito. Sentiu cheiro de saudades. Respirou fundo e deu início ao novo percurso, uma estrada com uma linha de fim como a do mar. Misteriosa. Já era velho e solitário e seu destino era tão certo quanto seu passado. Infeliz. Seus passos arrastados o levavam para sua morte. Chorou. Livre do casarão ou próximo de voltar, seguiu sem perceber que ao fundo então, o girassol acendeu-se.

Andy Gercker
14 de janeiro de 2008.