ele disse pra si: eu sou egocêntrico sim!
mas com plena consciência de minha insignificância.
27 maio 2012
15 maio 2012
É SIMPLES
você esta dirigindo numa velocidade frenética. ao seu lado apenas um paredão verde.
de muitas árvores. árvores e árvores. milhões e milhões de folhas que aglomeradas não passam de um enjoativo paredão verde. e você continua guiando. freneticamente. nenhuma surpresa. tudo igual ou até pior. porque é tudo verde. quase já nem gosto mais do verde. mas se então você presta atenção em uma folha. qualquer. viu por acaso. rápido. a viagem continua a mesma. você continua frenético. o paredão continua verde. mas aquela folha vem com você. não importa que continue tudo igual, mas aquela folha vem com você. ela vem com você...
* pra ler respeite o ponto. o tempo do ponto.
andy gercker
15 maio 2012.
rj.b.peixto
05 maio 2012
Uma cafeteria.
Pedro está sentado olhando compenetrado para um livro.
Joao - Oi. Voce está esperando alguém?
Pedro absorto em seus pensamentos nem repara na presença do outro.
Joao - Oi.
Pedro - Oi?! Desculpe eu estava distraído.
Joao - Voce está esperando alguém?
Pedro - Eu? … Não.
Joao - Posso me sentar com voce?
Pedro - (desconfiando) Pode…
Joao - Eu te vi sentado aqui sozinho a um tempão. Achei que voce tivesse esperando por alguem que nunca chega e me pareceu triste por isso.
Pedro - Nao, eu nao estou esperando ninguem. Tambem nao estou triste. Quer dizer, eu sempre estou esperando alguem que nunca chega. Mas isso nao me deixa mais triste. Estou aqui tomando um cafe e lendo um livro.
Joao - Nao me pareceu que voce estava lendo o livro.
Pedro - É. Eu me distraí um pouco.
Joao - Um pouco?
Pedro - Nao foi pouco?
Joao - Nao.
Pedro - A quanto tempo voce estava me observando?
Joao - Durante todo o tempo da sua distracao.
Pedro - Que estranho, é um pouco invasivo.
Joao - Me desculpe, eu nao queria…
Pedro - Tudo bem.
Joao - Que livro voce esta lendo?
Pedro - O Livro do Desassossego.
Joao - Entendi.
(riem)
Joao - Voce me disse que sempre está esperando por alguem que nunca chega…
Pedro - De certa forma...
Joao - Sera que ja nao chegou e voce estava distraído?
Pedro - É possivel.
Andy Gercker
RJ - qualquer dia desses...
25 abril 2012
UM POEMA PRA ELA
eu a toquei. e girei com ela. dancei com ela. e ela ou eu. alguém se empolgou além da conta. que ela até gritou. pá. e caiu. no meio da neve de espuma na pia. ela caiu. pesada e triste. logo você heim?! que eu gostava tanto. que eu achava que era ótima. logo você heim?! poxa vida heim dona torneira? amanhã vou troca-la e pra sempre te esquecerei. te esquecerei?
andy.gercker
rio.copacabana.b.peixoto
25.de.abril.2012
12 abril 2012
O ULTIMO ESPETÁCULO
(bate na porta do apartamento do outro)
oi
oi
voce pode me dar um abraço?
(abraçam-se com muita intensidade e demoradamente)
entra. quer agua?
não obrigado. quer dizer. eu quero sim.
eu vou buscar.
(fica em cena só. olha ao redor. observa os detalhes da casa. chora)
metade natural metade gelada.
no ponto. (olham se) obrigado.
que surpresa.
boa?
o que? muito boa.
eu vim visitar um amigo aqui no prédio, achei incoerente ir embora sem bater aqui. pra te ver. eu cheguei descer, já estava no portão quando decidi voltar.
fez bem!
fiz! eu precisava de um abraço.
eu também estava precisando. e estava precisando do seu.
eu também estava precisando do seu.
vai me contar o que aconteceu?
(seus olhares estão fixos um no outro)
eu estou muito, muito, muito… triste.
vem cá. encosta sua cabeça no meu colo. quer musica?
pode ser.
(entra musica. de leve. vitrola. vento)
ele então muito triste conta ao outro a perda de um amigo.
andy gercker
rio 12 abril 2012.
b.peixoto/copacabana
08 abril 2012
O DE LARANJA E O DE AMARELO
o de laranja está na mini cozinha. do mini apartamento. do mini bairro chamado Peixoto no coração sufocado de Copacabana/BraZil. cozinhando um enlatado qualquer. fala ao de amarelo que está no mini quarto desse mesmo mini apartamento: mi amore… donde estás mi amore? e o de amarelo de nem tão longe responde: estoy a cá mi amore.
- a cá? donde és a cá?
- a cá, uhuull, amore, a cá.
o de laranja descansa a colher que estava revirando o qualquer na panela. inclina seu corpo levemente para esquerda. movimento suficiente para se ter uma vista completa do quarto que fica ao lado ou dentro do quarto. aparece para o de amarelo com um fundo rosa e escondido por de trás de um pisca-pisca e fica surpreso com o que vê.
- uau. que guapo. mi amore. que guapo!
- te gusta assim? pergunta o de amarelo.
- sí, mi amore, me gusta mucho, mucho, mucho.
ao fundo ouve-se bem baixinho Marvin Gaye cantando um dos seus sabores dando o clima perfeito para esta cena.
dançam o de amarelo e o de laranja. deve ser por volta das 18 horas de um dia qualquer, mas nem tão qualquer assim como o enlatado que fica fervendo na panela enquanto no quarto se amam o de laranja e o de amarelo.
andy gercker
08 03 2012
copacabana. b.peixoto. rj.
06 abril 2012
SEXTA-FEIRA, SANTA!
minha mãe me ligou durante meu almoço. eu a perguntei: mãe, tem problema eu comer frango no dia de hoje? e ela sabiamente me respondeu: meu filho, o que importa é o que sai da boca.
depois dessa comi meu frango sem culpa!
Andy Gercker
Rio, 6 março 2012
28 março 2012
as vezes eu ensaio minha morte.
eu tiro o volume da televisão e programo o aparelho no timer, no sleep, no desligamento automático, eu mesmo programo o tempo que preciso. fecho os olhos e apenas sinto a vibração da luz vinda da tela brigando ou brincando com a parede. e fico ali pensando nas coisas que eu gostaria de pensar antes de morrer. então de supetão a luz apaga. tudo acaba. acho que quando se morre é assim. pode ser que naquele momento você seja tomado por um frio violento, uma forte onda de gelo que atravessa seu corpo, mas que logo em seguida lhe desce um… um… um tesão da porra. e é como se você tivesse um orgasmo de proporções… astronômicas, inimagináveis, delirantes, mas que logo assim que você recupera os sentidos e percebe o que de fato aconteceu é que você conclui. ah sim, você morreu. e então simplesmente, sem grande esforço você adormece.
andy g.
b.peixoto/copacabana/rj
28.03.12 bem tarde pra quem vai acordar cedo.
18 março 2012
PEQUENO ESCÂNDALO NA ORDEM DAS COISAS
- Onde estão minhas fotos? Onde estão minhas fotos? Me diz, onde estão minhas fotos? Devolva, são minhas, eu as fotografei são minhas, devolva, por que essas gavetas não abrem? entregue minhas roupas preciso sair daqui. Onde estão minhas fotos? Não me encoste, não me fale, não me olhe, devolva minhas fotos, entregue minhas roupas. Sim, eu estou exageradamente desesperada, eu preciso sair daqui, estou ficando infeliz. Eu as tirei. São minhas. Por que você fez isso? Eu confiei em você. Eu só tinha você. E você sabia disso. Quem é você? Sai da minha frente. Eu não te conheço mais. Eu tenho nojo de você. Eu sinto raiva de você. Eu estou com saudades de você. Acende a luz. Me dê as chaves. Tire essa música. Devolva minhas fotos, eu as tirei não é você. Eu não quero ouvir nada. Eu sinto medo. Eu grito sim, me deixa. Entregue minhas roupas. Não me encosta. Para onde eu vou? Você quer saber para onde eu vou? Agora? Agora você quer saber para onde eu vou? Eu te amo. Abra a porta. Eu tenho medo de você. Foda-se minhas coisas. Não me olha. Por que você foi fazer isso? Por que você foi fazer isso comigo? Me diz. Olha para mim. Eu não te conheço mais, pode falar. Olha para mim. Não, não olha para mim, dói. Eu dormi por muito tempo? Me fala. Eu estou dormindo muito tempo? Há quanto tempo estou dormindo sem te ver, me diz porra! Você é tão lindo. Devolva minhas fotos, eu só as quero, me devolva eu quero ir embora. Não me encosta. Não quero ouvir. Por que você me machucou assim? Fala. Tira essa porcaria dessa musica. Acenda essa luz. Devolva minhas roupas. Entregue as fotos e as chaves. Eu te cansei? Eu fiz você passar vergonha? Eu sou pouco? Eu te amo tanto. Eu não me conhecia antes de você. Eu não existia antes de você. Para onde você foi? Alguém diz aquilo que eu não te disse? Alguém consegue ser mais feliz com você do que eu fui? Me diz. Grita. Me livra dessa culpa. Eu te amo. Você é tão lindo. Me beija. Aproveite que estou nua e me suja. Mais. No chão? Você quer que eu me deite no chão? No sofá? Você quer que eu suba no sofá? No balcão? Onde você quer? No banheiro? No tapete? Quer que eu volte para nossa cama e volte dormir? Onde você quer porra, me diz. Aumente a musica, deixe as luzes apagadas e me suje. Mais. Por que você não me quer mais? Não fale. Dói. Quer que eu volte dormir? Eu te deixo ser feliz no sonho. Estou me sentindo infeliz. Humilhada. Devolva minhas fotos, abra a merda da porta, não fale nada, me deixe desaparecer, entregue minhas roupas, por que essas gavetas não abrem? Eu te amo e sinto nojo de você. Eu sou pouco? Eu sou muito pouco? Eu te cansei? Eu estou gritando sim porque dói. Porque você me fez doer. Que cara de pateta você tem. Um bolha, você é um bolha que eu amo tanto seu bolha uma porra de uma bolha um tremendo filho de uma puta bolha que eu amo tanto. Estou, estou exageradamente desesperada, exageradamente perdida, exageradamente sozinha. Escuta. Escuta. Você esta ouvindo? Tem pessoas me ouvindo. Tem pessoas querendo descobrir o que você fez comigo. Entregue as chaves, abra a porta, conte para essas pessoas o que você fez comigo, o que você conseguiu fazer comigo. Conte seu porra, seu bolha. Ele já vai abrir, esperem. Ele já vai contar. Vamos. Estamos esperando. Eu para sair eles para ouvirem. Quer me sujar antes de sair? Me diz, você quer me sujar antes de eu sair? Você quer me sujar na frente deles? Vamos. Eu quero, eu quero que você me suje mais uma vez a ultima vez. Na frente de todos enquanto você fala, enquanto você grita, enquanto você se humilha, enquanto você se livra de mim você me suja mais uma vez a ultima vez. Abra a merda da porta. Tire essa musica. Devolva minhas fotos, eu as tirei, são minhas. Por que essas gavetas não abrem? Estou, estou completamente exageradamente infeliz. Você gosta dessas plantas? E desse vaso? Você acha pesado esse vaso? Você acha bonito e pesado esse vaso? Me fala porra. E essa vidraça você acha resistente? Não me encosta. Aumente essa musica. Acenda essa luz. E me veja. Nua pela ultima vez. Nua. Suja. Infeliz. Pouca. Você gosta do barulho de vidros? Ouça. Me diz, você gosta desse barulho de vidros? Não está ouvindo? Eu disse para tirar a musica. Você esta me vendo? Esta vendo o que você conseguiu fazer comigo? Eu te amo tanto. Espero que você encontre as chaves que você consiga abrir as gavetas, você vai precisar abrir as gavetas antes de abrir a porta e contar para todas essas pessoas o que você conseguiu fazer comigo. Esta sentindo esse vento? Desculpa pela vidraça, desculpa pelo vaso, desculpa pelas malditas plantas. Desculpa por ter me apaixonado por você. Desculpa por não ter conseguido ser mais que pouco. Desculpa por te fazer feliz enquanto eu me fazia feliz, enquanto eu me conhecia. Olhe para mim. Olhe para mim pela ultima vez. Nua. Suja. Infeliz. Pouca. Exageradamente infeliz... Desculpa. Aumente a musica... Cuide bem de minhas fotos... Estou indo para te esperar.
- ...
Andy Gercker
05 Dezembro 2007
12 março 2012
chega um momento na vida que o mundo te exige uma decisão: ou você grita e joga tudo fora ou você cala. e esse silencio pode ser tão ou mais pesado que o peso que seria de ter jogado tudo para fora. voltar ao tempo não tem como. o melhor seria inverter. bem na real isso pode acontecer a qualquer instante. e a quem disso nem consegue entender, não se tem o que fazer nem o que dizer. uma hora os eixos se encontram num novo ciclo, quem sabe não acontece um reencontro? o tal realinhamento... tudo pode ser ou não. mas que o peso de jogar tudo fora é pesado, isso é.
Andy Gercker
12 de Março de 2012
B. Peixoto/Copacabana/RJ
A Poesia de Mauá. Desenho de criança.
15 janeiro 2012
IT COULD HAPPEN TO YOU
Nunca sei quem vai atender a porta que bato. O
que pode ser visto como gentil pra você pra mim agora me sufoca. Expandir-me me
sufoca. E dançar comigo mesmo nessa sala é tão gostoso. Um calmo tocar-me sem
medos. À vontade. Refinada fruta com jeito de suco na taça entre os dedos,
bailando. Sem intenções de falhar, só admirando esse outro lugar. Viajando esse
outro lugar. Em outro lugar é o lugar que não quero estar depois de ter
aprendido dançar. Só quero dançar... dançar... Não preciso mais compartilhar.
A parada agora é comigo baby! Pode deixar que agora eu sei guiar.
andygercker.15janeiro2012.
13 janeiro 2012
Quando a sorte sorri.
A sua descrição dizia: esperando a sorte sorrir.
E não é que sorriu?!
Eu escrevi imediatamente: a sorte sorriu!
Ele pergunta: sorriu pra quem?
Eu devolvo: com sorte, pra ambos.
Sorrimos...
Andy G. Jan/2012
04 dezembro 2011
Porque você é solteiro...?
Olhe pra mim/Esse sou eu/E isso que você está vendo/Minha casa/Esse é um dos meus universos/Aqui tem muito de mim e se você prestar atenção irá perceber que eu me revelo nos detalhes/Além disso/Aqui dentro/De mim/Existe outro e gigantesco universo/Muito mais complexo e cheio de cores e formas e nuances e mistérios que se você quiser/Se você tiver o simples cuidado de me observar sendo/Irá facilmente notar os mínimos e múltiplos detalhes que fazem de mim/Ser o que sou/E talvez/Talvez assim/Você encontre a resposta pra sua pergunta/Se é que lhe importa/Se é que me importam/De qualquer maneira/Aquela porta/Aquela porta que você está vendo/Embora esteja encostada ela nunca esteve trancada/Percebe? Percebe? ... Percebe? Se/Sou solteiro/Se danço/Bebo e canto sozinho/Talvez/Talvez seja/Porque ninguém até hoje tenha sido atrevido o suficiente pra colocar sua mão na maçaneta e abrir essa porta que está somente encostada/Somente encostada. Entende? Entende? ... Entende?
(dança ouvindo Im sorry de Brenda Lee e olhando “praquele” que proferiu a pergunta)
Sobe música e vai baixando a luz.
... sorry.
19 novembro 2011
TEXTO PRA VIDEOBOOK I
... textos que escrevi de presente pra minha amiga Manoela Reichmann
Porque você demorou tanto tempo pra chegar?
Eu já nem acreditava mais que isso pudesse acontecer
Te ver outra vez
Você não mudou muita coisa!
E eu? Mudei muito?
Voltei pro cabelo natural, você reparou?
Eu estou ficando mais natural
Ainda estou ... "
o texto completo você encontra em:
https://sellfy.com/1195474823806915
o texto completo você encontra em:
https://sellfy.com/1195474823806915
TEXTO PRA VIDEOBOOK II
Não, nós não temos mais nada pra conversar.
Eu PRECISO te pedir um favor:
Não me procure mais.
Já passou o tempo
Estou falando isso porque realmente não existe mais a menor possibilidade
A menor hipótese de eu voltar ... "
o texto completo você encontra em:
https://sellfy.com/1195474823806915
o texto completo você encontra em:
https://sellfy.com/1195474823806915
07 novembro 2011
COM BATOM FUCCIA NA BOCA
Essa mancha eu estou te falando. Essa mancha. Ela me apareceu ontem, ou já era hoje? Enfim, meu fuso ficou muito confuso depois que me viciei nesses programas da Discovery Chanel. Eu estou com um probleminha de baratas aqui em casa não é? Já fiz de tudo pra me livrar dessas nojentas até já limpei a casa e nada. Aí outro dia eu estava reclamando pra um amigo contando das baratas e ele me disse que tem um produto pra matar pulgas que se chama botox e que se compra em casas, essas casas que vendem ração pra cachorro, comida de peixe, essas coisas. Ta. Ai voltando pra casa ontem a tarde, e era tarde mesmo porque lembro muito bem que foi depois do meu almoço e desse almoço eu não esquecerei tão cedo, porque a “menina” que foi almoçar comigo impressionou um pouco de mais os clientes da cantina que eu almoço todos os dias, acho que eu vou ter que dar um tempo de almoçar ali. Eu o convidei pra almoçar e ele foi vestido como quem vai pra jantar. Imagine, um negão de quase dois metros com batom fuccia na boca e umas plumas meio verde limão. Divina, mas um horror. Impossível esquecer esse almoço. Por isso lembro com clareza que era tarde quando eu passei em frente a uma dessas lojinhas que vendem essas comidinhas pra bichinhos. Eu estava de bicicleta, foi cinematográfica minha passagem por esse armazém. Vá imaginando. Eu, voltando daquele almoço fazendo centenas de caretas...
... e a saga continua...
JULIO CESAR
* em um supermercado no fim de tarde de um domingo.
Cesar sai de casa quando percebe que o dia já se foi. A rua já está quase escura e ele corre pra espiar o restinho do dia e aproveitar que o mercado ainda está aberto. Precisa de água, açúcar, café, leite, chocolate, essas coisas que solteiros precisam pra passar um domingo. Ou o que ainda sobra dele.
Cesar anda feito barata tonta nos corredores do mercado, distraído, com fones no ouvido, ouvindo, sei lá, qualquer coisa, o importante é sair logo desse labirinto iluminado e movimentado.
Cesar esbarra em alguém. Um moço alto. Cesar olha pra cima e pede desculpas. JO moço alto nem percebe o que aconteceu. Mas alguma aconteceu. O moço alto continua procurando aquilo que precisa enquanto Cesar acredita que definitivamente acabou de encontrar tudo o que sempre procurou.
Cesar persegue o moço discretamente entre as prateleiras do supermercado. Fingindo procurar mais alguma coisa. Qualquer coisa. Patético. Percebe que a situação ficou patética. Desiste de seguir esse moço alto. Vai pra fila do caixa. Pra enorme fila do caixa. Procura outra música, uma trilha pra esse instante. Algo melancólico sem dúvida. E quando entra a música estourada em seus ouvidos Cesar olha para trás e eis que se depara com quem? Sim, o moço alto. Disfarça o nervosismo, o quase constrangimento. Muda urgentemente a música e baixa o volume, não quer parecer piegas e exagerado. Quer parecer incrível, gostaria de ser percebido. Anda dois passos, empurra a cestinha de compras com o pé. Olha pras mãos do moço e vê que ele carrega um litro de água e chocolates.
Quem enfrentaria uma fila de supermercado num fim de domingo pra comprar somente água e chocolate senão uma pessoa sozinha?
A água - lembra Cesar.
CESAR - Você pode guardar meu lugar um instante na fila?
MOÇO ALTO - Claro.
Cesar corre com o coração na boca pra buscar a água. Com pressa, não quer deixar o moço alto esperando nem que ele se sinta responsável pela cesta de compras de um desconhecido.
Cesar volta.
CESAR - Muito obrigado.
MOÇO ALTO - Não tem de que. (fala o moço com um sotaque carregado do interior)
É lindo o moço alto. Tímido. Menino grande e bem educado.
Sem assunto.
A fila anda lentamente. Irritantemente. Felizmente.
CESAR - Isso que é domingo!
MOÇO ALTO - Muita gente né?
CESAR - Esse supermercado é sempre assim. Cheio e desorganizado.
MOÇO ALTO - Poucos caixas disponíveis.
CESAR - E as únicas atendentes estão sempre de cara feia.
MOÇO ALTO - É sempre assim?
CESAR - Sempre. Você não é daqui?
MOÇO ALTO - Não! Sou do interior de São Paulo.
CESAR - E veio passear no Rio de Janeiro?
MOÇO ALTO - Vim prestar um concurso público. Acabei de voltar da prova.
CESAR - Deve estar cansado .
MOÇO ALTO - Um pouco. Passei o dia lá.
CESAR - Em que área você prestou o concurso?
MOÇO ALTO - Juiz Federal.
CESAR - Uau!
MOÇO ALTO - E você faz o que?
CESAR - Sou ator.
MOÇO ALTO - Uau!
Os dois riem timidamente. Cesar olha para todos os lados tentando disfarçar sua euforia. E parece que o moço alto faz o mesmo. A fila anda mais alguns passos.
MOÇO ALTO - Você mora aqui?
CESAR - Sim, venho do Sul, mas moro aqui.
MOÇO ALTO - E você gosta? Já se adaptou à cidade?
CESAR - Já me adaptei. Acho que sim. Estou me adaptando (ri) Ainda estranho muita coisa. As caras feias das caixas de supermercado, por exemplo, ainda me assustam muito. Mas a cidade é muito agradável. Livre. As pessoas vivem nas ruas. Nas calçadas, nos bares. O oposto pra mim que venho de uma cidade fria em que as pessoas costumam se encontrar sempre dentro de algum lugar. No fundo eu acho que esse é o motivo que deixam essas pessoas tão indispostas em nos atender bem. Mas enfim, eu gosto muito daqui. Você já conhecia o Rio de Janeiro?
MOÇO ALTO - É a segunda vez que venho, mas não posso dizer que conheço. A primeira vez eu vim num dia e voltei no outro e dessa vez igualmente, vim ontem, passei o dia de hoje na prova e já volto amanhã bem cedo. Tenho que trabalhar.
CESAR - Que pena. O Rio merece pelo menos uma semana.
MOÇO ALTO - É eu sei, mas ainda não posso.
CESAR - Ainda.
MOÇO ALTO - É. Ainda.
CESAR - Mas se passar nesse concurso, você virá.
MOÇO ALTO - Tomara.
CESAR - Você vai passar!
È claro que ele vai passar, ele é inteligente, ele usa óculos, é lindo, é alto, é o homem da vida de Cesar e não tem porque ele não passar. Eles se encontraram. Eles se encontraram. Eles se...
A fila quase nem existe mais. Cesar é o próximo e está aflito. Tudo pode acabar. E como vai terminar essa conversa? A atendente o chama. Cesar levanta a cesta de compras do chão, olha pro fundo dos olhos do moço alto e repete.
CESAR - Você vai passar!
O moço alto sorri aparentemente nervoso. Acho que também está um pouco aflito. Não sabe que atitude tomar. Que gesto fazer. Cesar se enrola pra guardar as mercadorias na mochila, em digitar a senha do cartão e todo atrapalhado até consegue fazer rir a caixa de cara feia do supermercado. Não há mais o que enrolar. O moço alto a essa altura já está pagando suas compras: a água e o chocolate. É preciso sair. Outro na fila quer ser atendido também.
CESAR - Bem... Muito prazer. Seu nome?
MOÇO ALTO - Julio.
CESAR - Cesar.
JULIO - Não. Só Julio.
CESAR - Eu me chamo Cesar.
JULIO - Ah! Sim, claro.
(riem)
CESAR - Tchau então. Muito prazer.
JULIO - Tchau. Muita sorte e sucesso.
CESAR - Sorte pra você também no concurso.
Cesar vai saindo do supermercado. Olha pra rua totalmente escura. É domingo. Nunca mais encontrará Julio. Provavelmente nunca mais. Nunca mais. Nunca mais? Como assim nunca mais? Cesar pára e finge que está escolhendo uma musica pra ouvir enquanto espera por Julio.
Cesar não pode deixar de fazer com que exista uma continuação pra esse encontro.
A REALIDADE TRANSPARENTE
CESAR - Julio, você está hospedado em um hotel?
JULIO - Sim.
CESAR - Está cansado né?
JULIO - Um pouco.
CESAR - É que eu pensei se você não queria tomar um chopp em alguma calçada pra aproveitar mais um pouquinho a cidade antes de ir embora? Sei lá.
JULIO - Claro! Eu quero sim.
CESAR - Quer mesmo?
JULIO - Quero!
CESAR - Eu só preciso ir até em casa pra me livrar desse peso.
JULIO - E eu preciso ir até o hotel deixar minhas compras também.
CESAR - Onde fica seu hotel?
JULIO - Ali (aponta) naquela rua.
CESAR - Ah é? A rua onde moro.
Os dois caminham juntos até a portaria do hotel.
JULIO - É aqui. Como faço te espero?
CESAR - Sim. Eu volto rapidinho.
JULIO - Quarto 506.
CESAR - 506? Que curioso é o número do meu prédio.
Cesar corre até sua casa. Deixa suas compras jogadas na cama, se olha no espelho, arruma o cabelo, passa mais perfume, escova os dentes tudo muito rápido. Respira fundo. Sorri. Está feliz. Desce e chega novamente na portaria do hotel e encontra Julio que já estava a sua espera.
JULIO - Está um pouco frio. Será que vamos mesmo tomar um chopp numa calçada? Ou será que você não gostaria de subir? Tenho água e chocolate pra oferecer.
CESAR - Subir? Quero.
JULIO - Quer mesmo?
CESAR - Quero!
E sobem...
Pra que calçada? Pra que chopp? Pra que aproveitar a cidade só um instantinho no fim de um domingo? Pra que ir pra rua se dentro de algum lugar tudo pode ser melhor? Se eles têm muito que fazer, muito que se conhecer, muito quê. E depois, amanhã bem cedo Julio tem que ir embora. Trabalhar. Esperar o resultado do concurso. E Cesar vai ficar. Vai ficar esperando, torcendo, rezando, andando pelos corredores do supermercado procurando, procurando...
Se eles vão se encontrar outra vez? Não sei, não sabemos, eles não sabem, ninguém sabe. Ninguém sabe. Por enquanto vamos deixá-los a sós.
Andy Gercker
06.10.11
RJ
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