22 setembro 2010

ATRAVESSANDO UMA NOITE TRISTE

Outro dia já era quase duas da manha e eu já fritava na cama umas 4 horas... Foi aí que resolvi levantar da cama, acender um cigarro e ouvir uma musica bem alto, uma musica daquelas que perfuram, de vozes rasgadas e de melodias ardidas. Foi o que fiz, acendi um pequeno abajur e sentei-me de cabelos armados e pijama esgarçado ao lado da janela da sala e ouvia a musica e tragava aquele gosto amargo do cigarro e tentava me concentrar em qualquer coisa menos dolorida. Quando eu já estava em alfa, em contato com qualquer mundo gelado e secreto e ausente de som... Explodiu alto na minha cabeça a maldita campanhia insistentemente, eu fiquei uns instantes antes de abrir a porta pensando no dedo da pessoa que devia estar cansado de tanto apertar o maldito botão. Eu, como dedo nessa hora me revoltaria, teria uma câimbra VOLUNTARIA, onde já se viu... Isso não é respeito ao corpo. Enfim, abro a porta e vejo a cara amassada de uma pessoa que eu nunca vi na minha vida. Uma senhora azeda meio verde com cara de puta. Puta de raiva não de profissão, porque mais parecia mesmo uma carola de alguma congregação de irmãs católicas espumando palavras do tipo: você tem idéia de hora seja isso? De que existem pessoas dormindo que trabalharam o dia inteiro e que acordam cedo porque tem uma família pra sustentar e não que são uns desocupados que não faz nada o dia inteiro e que por isso acham que tem o direito de ouvir uma musica como esta, alta desse jeito? Ainda se fosse uma sertaneja. Isso ela aos berros gesticulando na minha frente e eu ouvia toda essa balburdia, mas era como se eu não estivesse ali, eu via essa senhora como se fossem projeções de um clipe da Bjork todo estranho todo colorido, num susto eu voltei à tona quando ela disse qualquer coisa sobre chamar o sindico ou se ela era a sindica. Eu sou tão informado do que acontece do lado de fora de minha casa q ainda acho q o Sarney é presidente do Brasil. Eu olhei profundamente nos olhos daquela senhora e disse não, hoje não dá. Não posso, eu PRECISO ouvir a musica nessa altura, eu tenho o direito de sofrer sozinho a minha dor. Com a porra da musica que eu quiser, e no volume que eu quiser a senhora volte pra sua casa, entupa seus ouvidos com algodão, olhe pra cara de seu marido turrão e meio bêbado jogado na cama e proponha qualquer coisa erótica depois suporte aqueles peidos de repolho dele e durma. E me deixe, eu não tenho família não e também já me conformei com isso, porra. Eu NÃO tenho o que fazer durante o dia, portanto eu tenho muito pra pensar durante a noite.

Andy Gercker - alguma noite de 2008... por aí.

24 fevereiro 2010

SEGREDO DE GENTE GRANDE

Ele foi interrompido no meio de um sonho. Com o barulho de uma janela batendo contra a parede trazendo para dentro do quarto uma rajada forte de vento gelado. Um susto daqueles bem gigantes que fazem tremular as pernas. Como se tivesse levado um soco inesperado de um troglodita. Não foi bom. Ficou com aquele azedo na boca e aquela sensação de impotência. Podia ter sido um espírito que atravessou seu corpo de maneira ágil e apavorante. Sem entender o que tinha acontecido decidiu investigar. Procurou no escuro alcançar seus óculos, que estavam entre as páginas de um livro, calçou seus chinelos surrados e caminhou atordoado até encontrar a tomada para acender a luz de seu quarto. Vistoriou ressabiado todo o ambiente e não encontrou nada. Respirou profundo, meneou a cabeça pra livrar-se do mal estar. Foi até a janela e pela fresta da cortina espiou a lua. Sorriu. Era ela. Voltou para cama, guardou seus óculos e deitou-se de chinelos. Acomodou-se entre os travesseiros e ficou contemplando o céu de seu quarto. Estava salvo, o que aconteceu não se repetiria. Essa criança grande de chinelos na cama e luzes acesas permanecia com seu segredo guardado.


Andy Gercker 
Curitiba
24.2.10

05 dezembro 2009

SINCERAMENTE EU NÃO SEI

Eu não sei, sinceramente eu não sei. Não sei se faz bem, ficar assim em casa. Deitado no escuro e ouvindo essa música tragicamente linda. Talvez eu devesse sair de casa, mas também não tenho certeza se isso não fará com que eu fique ainda pior. Meus músculos estão descontraídos e minhas pupilas cansadas. Não quero e não posso ver claridade. A música precisa ficar assim, nesse volume pra que eu não suspeite que nesse momento existe pessoas percorrendo freneticamente as ruas daqui de perto, feito baratas em testes de laboratório. É assim que no fundo todos somos, baratas. Daquelas que passam por perrengues medonhos e que vivem constantemente em movimento pra não ter que ficar no mesmo lugar e não correr o risco de serem pisoteadas. Estamos a todo momento amaldiçoados, a cumprir sem pestanejar, em toda e qualquer circunstância, respeitar esse infeliz sistema que nos obriga viver feito boi. Bicho. Barata. Indefere realmente se fico aqui nesse estado letárgico ou se encaro a cidade pra ver o que acontece. E acontece. Acontece tanta coisa que me deixa sempre ainda mais frágil. Hoje eu fiquei perseguindo uma senhora de muita idade na rua. Não deixei que ela percebesse que eu a seguia, não pretendia ser descoberto nem assustá-la. Apenas me intrigou sua figura franzina e de imensa aparência de abandono como se a tempos não recebesse nenhum tipo de afeto. Ela era meio cor-de-rosa a senhora. Andava curvada pra frente e lentamente como se estivesse seguindo um exército de formigas. Estava tão compenetrada no que fazia que não poderia fazer nada pra se defender, caso fosse necessário. Eu decidi interromper meu percurso pra seguir essa senhora que chamou minha atenção. Tive tempo pra fumar, comprar água e ler as capas das revistas expostas na banca até que ela chegasse ao seu destino. Era um edifício antigo com tintas descascadas nas paredes e uma porta pesada que algum dia, provavelmente, já deve ter ostentado grande respeito e que hoje sequer é notada pelas pessoas que frequentam essa rua do centro da cidade. Ela, antes de entrar no edifício, voltou-se pra trás e olhou a rua mais uma vez, soltou um leve suspiro livrando-se do ar azedo do dia, tomou outra dose de vento, agora pra recuperar a lucidez que o sol a tinha tirado e entrou fechando a porta calmamente. Deve ter ido dormir a senhora cor-de-rosa. Ou deve estar deitada no escuro ouvindo músicas tragicamente lindas arrependida por ter saído hoje na rua. Eu vim pra casa. Nem lembro mais o que eu precisava fazer na rua e nem sei se quero lembrar, só sei que agora nesse instante eu não sei se devo continuar aqui nesse escuro ou se devo enfrentar a rua novamente pra deixar que mais alguma coisa aconteça.

Andy Gercker 05 dezembro 2009.

09 novembro 2009

PRA QUE HAJA UM NOVO FIM

Não faça eu me sentir um idiota. Não finja que não recebeu meus recados. Não subestime meus sentimentos e minha inteligência. Procure ser mais gentil. Um pouquinho de gentileza faz tanta diferença. Não custaria ter me ligado numa madrugada qualquer, não custaria ter deixado um recado na portaria, sei lá. Não custaria. Ou se é que custa realmente, porque ainda insiste em me fazer pensar que sim, que ainda pode existir algo saudável? Não consigo deixar de ser sincero. Penso que podia ás vezes me permitir ser o mais próximo daquilo que você esperaria que eu fosse. Mas não consigo deixar de ser como sou. Estaria me enganando e mais grave que isso, estaria te enganando, mostrando ser alguém que não sou. Gosto muito de você pra poder mentir pra você. Talvez eu não ceda mais e tampouco espero que você ceda mais também, acontece que desse cabo de guerra eu já estou cansado. Não alimento mais esperanças antigas, de que uma hora qualquer você possa despertar de sono e vir correndo dizer que me ama. Não espero mais isso, já ultrapassei essa fase de apaixonado alienado contaminado por uma paixão desenfreada. Já nem sou mais apaixonado pela idéia de estar apaixonado por você, apesar de você continuar incrivelmente apaixonante. E sempre foi assim que pensei. Nunca nutri um sentimento imaturo, irreal. Sempre soube reconhecê-lo atrás das máscaras. Prova de que isso é a mais pura verdade, é que agora depois de tanta história eu ainda paro e penso e escrevo pra você. Não tenho a intenção de transformar esse lamento numa tentativa ou numa missiva melosa. É só uma maneira que encontro pra me livrar dessa angustia que mora comigo. Que levo na mochila todos os dias quando encaro o dia. Eu como qualquer outro caí na armadilha do amor ou daquilo que imagino que seja amor. Não há nada de errado nisso. Sabemos disso. Não há culpa ou responsabilidade. Você pode pensar que seja egoísmo meu, que só penso em mim e em como seria bom pra mim, mas de verdade eu sinto falta apenas de um abraço ou de uma gentileza fresca. É possível hoje pra mim perceber que somos realmente de mundos diferentes e não se trata de horários ou profissões mas de lógica de pensamento. Caminhamos em direções opostas e sinceramente não sei se é o que espero pra mim. Ter ao meu lado alguém que está tão distante do que acredito. Quantas vezes fiz sinais, alarmes escandalosos pra você perceber que nessa trilha que desbravo há tantas coisas fantásticas que só te fariam bem. Pode me rotular como egoísta agora, é inevitável e até acho graça disso. Reconheço minha petulância de achar que o que eu vivo e vejo e acredito seja bom pra você. Acontece que depois do pouco que te decifrei percebi que um pouco daquilo que repito metaforicamente faria de você alguém mais feliz. Eu sei que você procura por uma felicidade leve como eu ou qualquer outra pessoa procura. Enfim, não quero me desvirtuar do meu pensamento. Também não sei te falar da ordem dos meus pensamentos até porque ordem é a última coisa que aconteceria se tratando do que penso. É essa confusão do que pensar e sentir que me faz escrever. Eu sempre tenho uma necessidade de concluir tudo que acontece comigo e por não ter mais competência pra lidar com história inacabada que me vejo obrigado a tomar uma atitude. Diga qual o melhor dia pra você que eu irei encontrá-lo. Não pra chorar ou pedir que me ame, mas pra eu consiga falar palavras que estão vencendo dentro de mim. Gostei muito de você pra deixar tudo evaporar assim tão descuidadamente. Não prometo amizade, não prometo mais amor, só posso lhe oferecer minha mais sincera verdade e garantir que depois da emoção que me causou só lhe devo uma explicação. Sarei daquelas velhas mágoas. As velhas mágoas estão curadas. Pra que não fique fagulhas de sentimento espalhadas pelo mundo nem que as palavras que devem ser ditas escapem assim por fragmentos de conversas. Preciso falar com você, de frente, pra entender definitivamente que não preciso mais de você. Nada acabará e isso seria impossível, mas me conhecendo do jeito que sou, mereço fechar essa porta pra poder abrir aliviado o quanto antes todas as janelas. Encontre um motivo que não lhe incomode e diga o lugar que irei te ver pra não mais te ver.

Andy Gercker
07 novembro 2009.

16 outubro 2009

UM TAPETE VERDE DIZ TUDO

Eu não entendo a pressa. Pra ver gafanhotos na rua? Sua mãe chama de esperança? Só porque são verdes? Que óbvia é sua mãe. Nunca me apresente, eu sou capaz de corar. Se você prestasse um pouco de atenção iria perceber que a última coisa que eu queria nesse momento era ter que levantar dessa cama vestir um casaco e sair nesse frio pra ver gafanhotos na calçada. Podíamos transar, estourar mais pipoca, ver o que está passando na televisão, mas não, vamos levantar no meio da noite, congelar a ponta do nariz, correr o risco de tomar um choque térmico pra ver alguns pequenos gafanhotos verdes na calçada. Não fosse sua maldita incontinência urinária, nada disso estaria acontecendo comigo agora. Você não teria visto pela janela do banheiro que a calçada está forrada de gafanhotos e eu ainda estaria debaixo das cobertas. Eu posso ser preso se alguém me ver assim de cabelos armados com esse pijama indecente e esse tédio todo. Não insista tanto, não percebe que estou cedendo? Você acha? Você não viu nada ainda. Se acontecer de eu pegar um resfriado aí é que você vai ver. Todo esse desespero pra ver gafanhotos na calçada. Isso o que está acontecendo comigo é perfeito depois de um dia infinito que eu tive. Eu sozinho hoje tomei umas três garrafas de café pra aguentar o peso do dia e é por isso que estou tão irritado agora. Eu suspeitava que talvez tivesse que atravessar essa noite de olhos arregalados saltados para o teto, mas não imaginei que teria que passar frio e irritação no meio da madrugada pra ver os gafanhotos verdes que você viu pela janela do banheiro e que sua mãe chama de esperança. Não me apresse mais, estou me esforçando o máximo que posso pra ser o mais ágil possível. Você me olhando desse jeito até me assusta. Eu quero só ver como é que você vai retribuir todo esse meu esforço de sair da cama essa hora pra ver seus gafanhotos verdes. Eu tinha esquecido que o corredor até a porta é curto. Eu tinha esquecido que moro numa casa humilde. Eu esqueço que sou pobre as vezes, veja você que ironia. Depois que deito eu sou capaz de esquecer as coisas, algumas coisas, aliás, por falar nisso, você já me perdoou? Eu espero que sim, afinal de contas, eu não consigo mais conviver com essa sua indiferença. Pronto, pode abrir a porta, já estou bem agasalhado. Eu não acredito no que estou vendo. Um grande tapete imóvel e verde bem na porta de casa? Só pode ser alguma brincadeira de mau gosto de algum desocupado. São milhares de gafanhotos verdes espalhados pela calçada e em boa parte da rua. Milhares de gafanhotos verdes, que sua mãe chama de esperanças. Mas estão todos mortos? Entendi a pressa. Você com isso me faz entender que... as suas....

Andy Gercker 17 outubro 2009 (Ctba)

É. DECADENTE. ADÍOS

Arrume um jeito de me ajudar. Qualquer coisa. Me traga um livro com uma história bem bonita. Ou me traga flores. Me traga um sorriso. Um perfume ou um olhar. Sei lá, inventa algo. Um disco que ainda eu não tenha. Uma tesoura pra canhotos. Um cartão do oriente. Me traga uma sopa talvez. Tem café? Qualquer coisa. Qualquer coisa que você trouxer eu vou gostar. Uma música pra refrescar minha alma. Um solo de piano. Ou uma voz rouca. Sabonetes também. Refri. É.

Qualquer coisa. Eu já disse. Uma cartilha com informações. Um passo de balé. Chulé?
Dispenso. Talvez você possa cantar? Um lápis. E o que escrever se possa apagar. É.
Traga qualquer coisa. Depois a gente esquece mesmo. Um doce. Em comprimido.
Eu vou gostar. Uma camisa do Che. Um lençol térmico. Ou um abraço. Bom.
Seja Bom. Camarada. Não vai te custar. E vai me ajudar. Chá ou revista.
Algo pro paladar. Traga a Tv a pipoca e o Dvd. Tente me ajudar. É.
Decidido. Você é capaz. O único capaz. Tente rapaz. E depressa.
Senão vou acabar. Depois não se arrependa. Não vá chorar. É.
Me deixa triste. Implorar. Por qualquer coisa. Você parou.
Congelou. Não me ajudou. Ou? Nada. Pena. Adíos. É.
Fique bem aí. Me vendo sumir. Decadente. Adíos.
Que você sofra. Pode enfiar. Não há mais tempo.
Venha me beijar. Desejar sorte. Dizer tchau.
Pena. Eu não tenho mais como esperar.
Tente não esquecer de me cobrir.
Feche a porta depois. A luz.
Apague a luz. E adíos.
Se puder. Se der.
Ligue pro.
Sabe.
Né?


Andy Gercker 16 outubro 2009. (Ctba)

08 outubro 2009

DIALOGO A QUATRO MÃOS E DOIS CORAÇÕES

... logo depois que a embarcação partiu.


- Ouça, ouça essa música. É cafona, mas é bem minha cara.

Ele ouviu. Atento. Vagou por outras esferas do tempo. Pra encontrar sentido. E respondeu:

- O bom senso você não perdeu, é cafona sim, mas também não perdeu o bom humor, é que de tão delicadamente cafona, confesso, é possível até chorar... com aquele sorriso no canto dos lábios. Não sei, me fez lembrar uma noite de carnaval barato que passei numa boate de quinta. Onde naquele dia tudo mudou... em mim.
- Nossa. Fiquei emocionado agora.

Ele ri.

- É sério. Bom te encontrar num dia assim.
- Bom? A palavra é bom?
- Hunrum
- É. Eu sou surpreendente.....
- É mesmo.
- Minha maior e não tão reconhecida qualidade!

O outro sem palavras. Ri.

- Mas me explique, porque essa música cafona é sua cara? O que melhor te define nela? Fiquei curioso.
- Ela é cafona, bonitinha (falsamente modesto) E tem a cara de uma pessoa imatura como eu.

E ri novamente, talvez tentando disfarçar o que sentiu ao revelar um trechinho de sua secreta e intocável privacidade.

- Como você está?
- Estou bem!
- Que bom. Está feliz?
- Estou. Mesmo tudo tão agitado, estou.
- O que está acontecendo?
- Coisas boas... pessoas legais.... estou querendo ser melhor também... me reaprendendo!
- Que bom.

Bom? Ele usou a palavra BOM de novo?

- Fico feliz em ver você bem.
- Obrigado. E VOCÊ está feliz?
- Estou tranquilo.
- Estou tranquilo. É ótimo. Então que bom que você está tranquilo.

Fez questão de usar o Bom. Precisava. Comicamente vingativo.

- É chato um pouco, mas é bom sim.

Seria perseguição ou ele usou o Bom outra vez?

- Me permita um ditado: Não há tristeza que perdure nem alegria que nunca acabe....

Bem possível que a estrutura da frase estivesse comprometida. Mas a idéia foi dita.

- E assim é.

De repente a música volta sem avisar.

- A música começou tocar de novo... e agora fiz outra leitura... talvez eu tenha dito bobagens anteriormente.

Ele fala rindo:

- Eu adorei. A leitura feita anteriormente.
- Menos mal, como você não tinha dito nada... adquiri essa culpa.... mas tudo superado já.
- Mente brilhante.
- Será outra qualidade minha não tão reconhecida?
- Provavelmente.
- Estou me reaprendendo muito rápido desse jeito. E já estou ficando soberbo.
- Você sempre foi muito inteligente, se é que isso ajuda nesse momento.
- Ajuda sim, alimente meu ego por favor....
- Pois tenho vários adjetivos na manga pra você.
- Uau. Destile-os. E me encharque de coisa boa.
- Você é extremamente inteligente, sensível... se bem que as vezes até demais. Opa, sim elogios, Você é decente, tem bom caráter, romântico, LEAL, mal humorado e sim, isso é um adjetivo positivo. Você é bonito, porque o físico também conta. É criativo, divertido, simpático, mas só quando quer.
- Estou adorando.
- Tenho orgulho de ter você na minha vida

Uma leve pausa no tempo. Um pequeno silêncio para aquele que ouve. E o que falava continua:

- Talentoso. Você brilha no palco. Cresce. Cresce mesmo. E olha que entendo lhufas disso.
- E? quero mais...
- Cansei.
- Poxa. Mas adorei, muito obrigado, vou dormir bem durante uma semana pelo menos.
- Exagero. Você sabe disso tudo e ainda é pouco.
- Pena que certas palavras se atrasam e assim perdem a embarcação. Aí ficam ali, naquele espaço do podia ter sido e não foi.
- Pois é.

E abaixa os olhos.

- O que é isso? Sorria. Era isso que você queria.

Instante que merece uma reflexão. Não se trata de grosseria. É de fato.

- Assuma.
- Voltando ao estado natural.
- Eu?
- Sim. Brabo comigo.
- Não, não me entenda errado... acontece que deixo a acidez escorrer as vezes, me perdoe. Não esqueça que estou me reaprendendo. Tentando ser melhor. Ouça o que falo prestando atenção nos sorrisos invisíveis.
- Enfim.

Pensa rápido assim: Em... Fim. A caminho de. É. Acho que sim.

- Adoro você, sempre vou sentir isso!

Outro instante digno de reflexão. ...sempre vou sentir isso... Será sempre mesmo? Até quando é capaz de durar esse sempre? Silêncio, ele continua:

- Seja sarcástico, seja querido...

Anuncia que vai partir.

- Tenho que ir.

...

- Obrigado. Irei guardar suas palavras como um presente.

Ambos sorriem. Porque não resta outra coisa.

Em... Fim.

Andy Gercker - Curitiba 07 out 2009

24 agosto 2009

NÃO PERCA TEMPO PARTE I

Eu não entendia porque ela insistia tanto para que eu fosse. Era nebulosa demais em seus argumentos. Representava um papel que não era comum a ela. Agia de forma amadora quando falava e para se expressar usava de gestos largos e desnecessários para me convencer de que eu devia ir. Que eu não devia sequer hesitar e somente concordar. Era visível seu esforço na tentativa de me fazer perceber que seria melhor se eu acatasse com que ela insistia. Eu realmente não entendia, pensava eu, se for tão fantástico, se for de fato fazer alguma diferença eficaz qual será o motivo de ela estar tão desconfortável nessa insistência? Uma problema impossível de solucionar. Ela bem na minha frente, quase suando, olhos saltados, mãos trêmulas e seus lábios discretamente trêmulos também, imploravam para que eu não me importasse com o que me era desconhecido e me convencesse de que apenas indo com ela que eu entenderia toda essa sua histeria ausente de justificativas lógicas. Não que eu tivesse algo importante a fazer que não poderia me retirar de onde estava, só que não compreendia por que ela teria vindo até mim e insistisse tanto nesse deslocamento fora de hora. Ela que eu a conhecia razoavelmente bem e que até então não tinha me mostrado esse seu lado obscuro e desnorteado, como estava agora na minha frente, ficava apenas me chamando e me chamando que teimosamente fui resistindo ainda mais o seu convite tão desapropriado para aquele momento. Chegava ser patético e um pouco cômico a situação, vê-la feito criança que chora e puxa a saia da mãe para mostrar algo que está em outro lugar. Acontece que quanto mais ela se esperneava mais eu resistia. Um pouco para ver o que aconteceria se eu não fosse e um pouco para deixá-la ainda mais exausta. Ainda suportei essa brincadeira de vamos não vou por algum tempo até que passei a perceber que se eu não fosse logo, realmente talvez eu não visse mais o que tanto ela insistia para eu ver. Estiquei meu braço e lhe ofereci um sorriso de vencido e fui arrastado até fora daquele lugar que estava. Quando cheguei, eu vi. Mesmo que só um rastro, mas mesmo assim ainda consegui ver. E era lindo. Tão inexplicavelmente lindo que somente eu e ela saberíamos. Não fosse eu ter relutado tanto e me atrasado, eu provavelmente teria visto mais. Como teria.

Andy Gercker 24 de agosto de 2009.

É POR QUE JÁ ESTAVA NA HORA!

É com se fosse um outro dia.
Que deixei para trás todas aquelas velhas e cansadas sensações.
É hora de começar com tudo.
E de tomar uma xícara de café antes de tudo.
Acordei antes de enlouquecer.
Acordei.
Viva, acordei.
É clichê, antigo, demodê:
Mas está na hora de pensar no futuro.
Estou quase mais feliz.
Quase.
Vou começar a não pensar mais naquilo que faltou você me dizer.
Vou reaprender a gostar das coisas.
Irei esquecer os lugares que eram nossos.
E do teu cheiro azedo que gostava vou passar a não lembrar.
É a hora.
É a hora de começar.
Vou lavar os pratos, reler os livros que não entendi.
Vou me ater ao invisível e deixar ele me transbordar.
Sou capaz até de gritar.
Porque está na hora.
Está na hora de recomeçar.
Quero me molhar.
Lavar o que deixei obscuro.
Quero quem sabe até cantar.
Não quero que me ouça.
Quero apenas recomeçar.
Vou me livrar de pensamentos enfadonhos.
E me preparar para o que vai chegar.
Por que vai chegar.
Eu sei que vai.
E eu quero estar pronto.
Ileso do que passou e certo de que estou num outro dia.
Pra começar com tudo.
Tudo que tem que acontecer depois de tomar um café.
Pra recomeçar.
Pra começar.

Andy Gercker 24 de agosto de 2009.

21 junho 2009

ONTEM NÃO ESCURECIA NUNCA

Ontem, a noite não escurecia nunca. Só fui perceber isso quando entrou no meu quarto o som de um insano motorista conduzindo desgovernadamente seu veiculo. De freadas em freadas pelas ruas secas e vazias da noite. Ate então eu estava mergulhado em Hilst-Lispector-Abreu, não sei. Procurei-o pela janela e não o encontrei, apenas o sentia percorrendo velozmente as ruas nuas. Eu numa dezena de palmas horizontais pude contemplar enfim o céu claro, mas tão claro, que não poderia crer se não o visse. E vi. E foi ele, o desgovernado insano motorista que veio me avisar, me chamar para ver que a noite não escurecia. Naquele instante tive a sensação de que apenas eu, sim apenas eu estava tendo o delicado privilégio de contemplar tamanha beleza. Aquilo tão grande, tão perto, tão meu. Aquela noite tão doce, tão clara de inverno tal como fim de tarde. Não havia outro som senão a histeria insistente do motor atormentando meu peito. A vida. Aquela que tanto me assusta, agora dormia. Tudo parado. Eu estava emoldurado naquela janela. Como uma gota de maçã em uma folha de papel em branco. Incomum. Completamente só naquele deserto de almas, ou almas sonolentas. Trancado como princesa no alto da torre. Coração vazio. Minha atenção que até então estava na literatura do lado de dentro da janela procurava desesperadamente distrair-se agora pelo lado de fora. Mas nada. Repito, nada. Deserto de almas, ruas secas e nuas. Só o insano motorista me chamando para ver que a noite não escurecia. Que era tudo luz agora.

Andy Gercker

RIO PRA NÃO CHORAR

Uma espécie de depoimento, desabafo, testamento, ao som de Cazuza.
Você sabia que as estrelas andam? Pois é... de vez em quando sento na janela e fico olhando atento para o céu. Escolho uma estrela e fixo meus pensamentos nela, geralmente me atrai atenção as estrelas que mais brilham e são justamente essas que andam. Aí concluo: Eu sempre escolho errado. Minha estrela brilha e depois foge e não me diz o que fazer, não me sugere um novo caminho como eu gostaria. Se esconde, fica longe do alcance dos meus olhos. E eu? Eu continuo na janela. Melancólico, triste, sozinho e carente. Como eu gostaria de conhecer alguém que pudesse me mostrar o outro lado da estrela. Alguém que me completasse, me compreendesse e me levasse para longe, para bem longe desse desespero. Protegendo-me, preenchendo esse vazio medonho que sinto no peito. Aqui tudo é lindo. Negros e brancos, ricos e pobres, pobres em cima de ricos – literalmente – o contraste cruel encanta, a praia ao pé da favela, o pôr-do-sol atrás da água, a maresia... O Rio é uma pintura. E eu querendo ser tinta. Ah! Como eu gostaria de estar inserido nessa tela, fazendo parte dessa obra. Interagindo. Mas raízes são raízes, posso me podar, me mutilar. Mas minha raiz se mantém presa. Resistente. Meus pensamentos vão e vem. É você, é ele, são elas, todos, sinto falta de todos, meus amigos, minha família, o cheiro da minha família, a figura única de minha mãe. Mas como sou cruel. Digo que sinto falta de todos e fico querendo estar do outro lado da estrela. Com outro alguém. Assim sou e vou indo: atrás daquilo que não sei. Carente, com uma esperança que nunca cessa, com essa angustia cinza, inseguro com o espelho, ansioso, curioso, desconfiado, dramático, ansioso, saudosista, ansioso, persistente, ansioso, choroso, divertido, divertindo, se enganando, enganando, ansioso, aproveitando, aproveitado, se aproveitando, ansioso. Um pulso tenso, um ar quente, uma lágrima discreta, uma voz divertida e rouca, uma voz calada, na calada da noite sentado na janela de Botafogo, esperando ansioso o próximo trem para as estrelas.

Andy Gercker
2005/RJ

E DEPOIS?

E naquela noite fomos até a praia. E sentamos ali na areia. Olhávamos nos olhos um do outro cheios de ternura. Até parecia um cenário montado pra que pudéssemos nos amar. Estrelas, areia branquinha e as ondas cristalinas indo e vindo como num sussurro e numa coreografia deslumbrante. Olhávamos e nos perguntávamos: E depois? E depois? E depois? E ríamos e chorávamos de tanto rir e de tanto amor. Até que decidimos entrar no mar. Pulando as ondas e nos perguntando: E depois? Eu gritava daqui bem alto: E depois? Ele gritava o mesmo de lá. Tão perfeito para ser verdade. Acabou que o depois acabou nem vindo. Veio uma onda enorme e o engoliu. E agora?

Andy Gercker

ERA NOITE QUANDO ELE APARECEU

Era uma noite de carnaval. Ele entre tantos rostos desesperados surgiu bem próximo dela e sorriu. Um daqueles sorrisos largos que só ele era capaz de ter. Ela, quase ingênua retribuiu um tanto tímida o sincero sorriso do belo e alto moço. Permaneceram assim alguns instantes, suspensos, numa alegria futura e indefinida. A musica soava num volume alto pelo salão e as luzes fortes entonteciam os dançarinos solitários. Ela pequena e triste sentia medo. Medo de ser feliz ou medo de mais uma vez correr o risco de desaprender a sorrir. Mas o sorriso daquele moço era tão bonito que as pernas da pobre moça até tremiam. A música invadia o corpo diáfano da moça e o tempo acervava-se perigoso, quando movida por um impulso a moça se aproximou com uma coragem desconhecida e olhou para cima para encontrar os olhos do moço e lhe perguntou: quer dançar comigo? O moço um tanto tímido também, aceitou. Em pouco tempo eles formavam o casal mais feliz de toda a festa. Suas mãos se tocaram e a moça encontrou um jeito de encostar seu coração bem próximo ao peito do homem alto, descansou sua cabeça no ombro daquele que transformaria seus dias e quase dormiu ali. Havia encontrado a moça um repouso para seu aflito coração. Dançavam parados no mesmo lugar. A moça que não queria festa estava sentindo-se plena nos braços calmos e aconchegantes do moço. E o moço parecia feliz. Quando numa surpresa, o moço encarou a moça e seguro disse: você está levando minha paz de espírito, mas mesmo assim me deixa feliz. A moça assustada com tanta possibilidade de felicidade quase não entendeu, sorriu discretamente, baixou os olhos e por pouco não chorou. Ela precisava sair dali, precisava correr e gritar. De medo de alegria de contentamento. O moço apertava suas mãos parecendo dizer alguma coisa como: não fuja de mim, não seja um engano para mim. E ela sem nada dizer apertava tão fortemente as mãos do moço como se entendesse o que ele estava sentindo. Conversavam pouco,  banalidades daquela noite de carnaval na cidade calma e quase deserta. As horas iam passando e o dia vinha chegando de mansinho. O moço disse que precisava partir. Ela não tardaria também naquela festa, não sem ele por perto. Despediram-se carinhosamente entre beijos cheios de excitação. A pista continuava cheia de pessoas indo e vindo em busca de amor ou perversão. E ela agora sozinha ria satisfeita. Reencontrou seus amigos e depois também partiu. Deixando para trás confetes e serpentinas de uma noite que se tornaria inesquecível. Em casa a moça já de banho tomado, jogou-se no sofá de couro vermelho e acendeu o último cigarro daquela noite, ouviu um clássico violino de amor. Sentia-se bela a moça, sentia-se feliz e um tanto atormentada com o inesperado encontro. Apagou as luzes deixando apenas um abajur iluminando a pequena casa, alcançou a manta colorida jogada na poltrona e escondeu seu rosto abafando um grito de alegria. Estava apaixonada a moça e não tinha mais volta. Na ponta dos pés, saltitante até seu quarto procurou descansar um pouco, acomodou-se entre os travesseiros e dormiu.

Andy Gercker

17 junho 2009

que silêncio agitado é esse
que desacelera a calma
inverte os ângulos
e arruina o dia?

Andy Gercker

17 maio 2009

RELATO DE UM DIA FRIO

Foi preciso abrir as janelas para ver o moço atravessar a rua mancando. E foi preciso lavar os vidros para ver que era dia de sol. Tenho vontade de escrever sobre o nada. Não se trata de falta do que dizer, ao contrário, é esse muito nada que me acerca. Esse devastador silencio agitado. Um escafandro em área urbana. Apelo para Satie na ânsia de me ver calmo outra vez. Deus, cuida do meu coração, sei que ando ateu, mas é a ti, força invisível que deposito minhas esperanças. Tentei fazer bolo, passar café, limpar o chão e esconder as marcas. Escrevi na parede palavras de outros. Pintei uma tela e a rasguei. Li Clarice e dormi. Me lavei por duas horas até ficar com a pele vermelha e quente. Faz frio lá fora. Faz muito frio lá fora. E aqui dentro de mim também. Antitérmico de oito em oito horas. Posso lavar a louça de ontem, mas não quero, posso mudar os móveis, de novo, mas não quero, posso ouvir canção popular, mas detesto. As plantas estão secas, preciso rega-las, mas cade forças? Tenho uma biblioteca modesta e podia me distrair não fossem meus olhos que ardem. E se eu dançar? Tolice, vá tirar as teias de aranha que forram seu teto. E se eu parar de escrever agora? .................................
De que adiantou? Ninguém me impediu. Parei e voltei e ninguém viu. Alguém lê? É desse silencio que falo, que quero escrever. Desse nada que acontece sempre. É impressão minha ou o vento está cansado? Acabaram-se as drogas aqui de casa e eu me tornei uma. Não posso nem gritar pois já estou rouco. Preciso de xaropes, de todas as cores. Um ciclista de camiseta vermelha pedala no centro da rua. O que ele pretende? Morrer também? Nem pássaros pousam na janela. E elas estão limpas e com migalhas de bolo embatumado. Ontem eu fui ao cinema disposto a chorar, despejar esse sal que está morando em mim. Um filme delicado de imagens claras e perturbadoras até, mas não chorei. Me tornei um insensível que não consegue mais chorar? Voltei para casa e resolvi dar fim a um outro filme que já vinha assistindo em partes e também não chorei, por mais cruel que fosse o roteiro. Apaguei as luzes e dormi. Hoje acordei cedo e já não é mais tão cedo assim e estou aqui sem nada para fazer e tudo para arrumar. Passa uma estudante com mochilas pesadas nas costas. Ela não me vê, estou protegido nessa caixa medonha por trás das cortinas. Ela também esta só, volta sem os amigos da escola. Fico a cada minuto mais surdo, estou perdidamente resfriado. Sim, faz muito frio lá fora, embora seja um dia de sol. Não fosse o ingresso que já comprei para o teatro dessa noite eu não sairia mais daqui. Se eu fosse uma galinha que pudesse chocar seus ovos. Com a certeza de amanha ter companhia. Que tolice. Vou beber. Cachaça pura com morangos. Olha lá, uma senhora de casaco lilás quer atravessar a rua. Ela tem medo. Ela também tem medo. É um medo diferente do meu, mas tem. Ela tem medo a senhora de casaco lilás. É um belo casaco, será de lã? Eu gosto dos azulejos do prédio vizinho. Esse ônibus tem passado com mais frequência, justamente porque não o preciso agora. Será que eu devia tomar um ônibus e chegar no ponto final e descer? Não precisa, já cheguei. De repente me vem a vontade de rir e zombar de mim. Dessa minha tristeza com causa. Desse meu texto triste. Dessa postura de voyeurismo barato e infantil. Satie cansou assim como o vento e como eu.
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sem mais o que dizer, durmo. 

Andy Gercker

RELATO DE UM DIA SEM FOME

Não a tem, a fome. Mas tem que por obrigação, comer. Logo mais suas pernas irão tremer caso não invente algo para mastigar e digerir. Não sente fome, sente frio. Lá vai: água, óleo e sal. Espera ferver a água dançando música francesa. Escolhe a massa entre um passo e outro da coreografia. Le fabuleux destin d´ um garoto triste num dia frio, tramando idéias para esquecer o que lhe atormenta enquanto escolhe o molho para enriquecer seu prato. Decide por fim, ervas finas. A massa mergulha na fervura, grita, procura uma tampa e abafa. Ficam apenas uns sussurros, que machucam. Aumenta o volume da música, não quer mais sofrer, não tanto assim. Sete, oito, um passo a frente, esquerda, uma volta e pula no ar e assim repete para decorar, no oito então: cinco, seis, sete e oito. Exímio dançarino. Un film de solidão. De um autor cabisbaixo e franzino. O indesejável alimento está pronto, é instantâneo. Escorre e mistura ao molho de lata. Serve acompanhado de um saboroso suco de frutas artificial. Como ele. Dança.... dança.... chora e dança.... e não come. Sai e alcança a rua fria e chora mais, e mesmo longe de casa, sem música, ainda dança e dança e chora. Na mesa, em casa o prato esfria. E ele corre para passar o frio, em vão... neva é nele. E isso nem a música, nem a massa nem qualquer coreografia é capaz de esquentá-lo. Só há um remédio, que se chama: um pouco de amor. Um pouco de amor ele pensa e ri. Só um pouco, um pouco de amor e ri. Um passo a frente, esquerda, uma volta e pula no ar. A comida na mesa por fim congela.

Andy Gercker

PRECISO VER O MAR

Preciso ver o mar. Curioso pensar que o que mais me assusta é o que mais me acalma também. O mar. Como é misterioso o mar. Hoje me peguei com essa necessidade, essa falta, com esta saudade. E ela chegou assim inesperada num momento tão absolutamente impróprio, mas me veio assim: que preciso ver o mar. Mas tem que ser naqueles dias em que ninguém se interessa por ele. A praia precisa estar deserta. Tem que ser naquele horário quase de fim de tarde início da noite em que a cor do céu ainda está indefinida. Seria bom se esse momento congelasse. E ficasse assim naquela cor naquele horário sem ninguém e só silêncio.  Quem sabe assim, quem sabe eu olharia para dentro de mim. Tenho evitado isso. Antes era uma apenas uma impressão agora sei que existem muitos de mim em mim, dois com absoluta certeza. O eu eu e o eu eu eu. Entendeu? Eu explico: uma espécie de: o que sou e o que de fato sou. Ficou mais claro? Eu sei como sou, sei por que sou só não entendo por que não ouço e porque ignoro quem sou. Seria tão mais fácil, gastaria menos tempo viveria mais coisas. Esse outro eu do meu eu é diabólico, não no sentido negativo, mas na capacidade de criar artimanhas e me passar sempre uma grande rasteira. Às vezes um terceiro eu do eu eu assiste isso e prevê a cilada em que estou caindo a cilada que eu mesmo preparei para mim e nada faz para evitar mais um tombo. Esse terceiro é cruel. Descobri agora. Deve ser pelo fato de sentir-se menosprezado. Aqui dentro ele não tem muita importância já que o que conta mesmo são esses dois. Eu queria simplesmente ser apenas um e queria que fosse racional, objetivo certeiro, prático, independente, ousado e mais generoso. Mas não cabe em um só tudo isso daí que tenho ou temos, não sei, não conheço outro por dentro para afirmar, mas daí que existem inúmeros de mim em mim. A temperatura contribui muito para que algumas dessas carências se manifestem a generosidade, por exemplo, faz tempo que não a vejo, deve ser pelo frio. Não tenho sido generoso comigo com os outros os externos talvez. É sempre tudo tão móvel em transição percorrendo caminhos distintos a cada segundo, mesmo sabendo a direção tendo o mapa decorado, mas esse segundo eu atrapalha, insiste em perturbar. Pra resumir, é a minha consciência brigando com a minha carência. Um minuto. Ou é a minha carência brigando com a minha consciência? Estão vendo? Elas não se entendem. Atrapalham-me até para defini-las. É uma querendo receber algo tão abstrato que não se sabe o que é, e a outra sabendo disso e ainda permitindo que isso aconteça sempre. Duas tolas perdendo tempo e fazendo sofrer um todo. Individualismo é isso que me destrói. Tão simples e tão impossível. Esqueça quando disse logo acima que sei como sou e sei por que sou. Na verdade não sei. Assim como não sei quem está escrevendo. Me perdi. Só sei que preciso ver o mar. Mas tem que ser naquele horário naquela cor sem ninguém só essa casca com tantos de mim, dentro de mim, deitado na praia de braços abertos esperando a primeira onda para aos poucos ir levando-me para dentro do mar para que eu me afogue de verdade. Quero ser arrastado aos poucos, discretamente e em silêncio sumindo. Quero morrer no meu medo. No mar. Quero nascer de novo e quando nascer quero pouco, quase nada, modestamente quero apenas ser um e mais nada.

Andy Gercker

04 janeiro 2009

ESTOU NO INÍCIO DO MEIO EM PROCESSO PARA O DEPOIS... 
DIARIAMENTE EM CONSTRUÇÃO.


ANDY GERCKER