30 outubro 2011

ouve.
você escuta alguma coisa?
não né?!
esse silencio se chama domingo.
se lá fora nada se ouve
aqui dentro nunca deixa de ser domingo.   

23 outubro 2011

TIPO CINEMA

Vovô e neto estão sentados frente a frente numa sala atemporal.
Silêncio.
Vovô entrega um presente ao neto.
Singelo.
Neto recebe o presente e sorri muito levemente. Emocionado.
Silêncio.
Vovô muito sereno. Sem achaques. É um homem muito vivido.
Neto abre o presente.
Música.
Neto chora. Chora muito. Ora ri. Ora chora ainda com mais emoção.
A música é triste. Ou linda. Ou uma gaita de boca.
Não se vê o presente nas mãos do neto.
Vovô continua sereno. Imóvel. Observa o neto.
Neto está vestido de maneira muito urbana. Jeans. All Star. Talvez um colete.  
Quem sabe até lápis preto nos olhos. Quem sabe. Não sei.
Close no presente que o neto acabou de receber. Um suéter. Novo, porém roupa típica de um idoso. Marrom talvez. Feio.
Neto segurando as lágrimas olha para o avô e um tanto envergonhado e muito triste diz:
- o senhor NÃO me conhece né vô?
Música sobe.
Vovô segura as mãos do neto. Olham-se profundamente.
É tudo muito lento. Melancólico.
Um piano.
Neto descansa sua cabeça no colo do avô e chora mais. Recebe um carinho.
...
Entra na sala uma mulher que fala muito e sem parar.
Ela gesticula faz caras caretas e nem percebe o que estava acontecendo na sala.
Outro tom.
Mulher:
- ainda bem que você chegou sua mãe já estava ficando preocupada. Também depois daquele acidente de ontem na estrada que ninguém mais fala em outra coisa. A sua mãe ficou rezando: ai tomara que nada aconteça na viagem do meu filho até aqui. Ai minha Nossa Senhora Aparecida ilumina o caminho da minha criança; ela pensa que você ainda é uma criança; Isso me cansa. Aliás, a sua mãe anda me cansando. A hora que eu te contar todas as coisas que ela anda aprontando por aqui, você vai ficar envergonhado da mãe que tem...
Mulher continua falando sem parar. Música sobe e ela continua gesticulando fazendo suas caras e bocas.
Corte na música e mulher fala:
- escuta, onde será que sua filha costuma guardar as facas?  
Neto e avô a ignoram e continuam se olhando profundamente.
Avô segura o suéter. Acaricia. Entrega para o neto e diz:
- É. Talvez eu não te conheça, mas eu SEI que você vai sentir frio. Todos nós sentimos algum dia. E eu sinto muito.
O neto ri. Fala:
- obrigado vô, tem razão. Tem razão. Eu vou sentir frio. Obrigado vô. Obrigado.

... lá fora tudo fica muito muito claro! 

Andy Gercker 23.10.11 RJ


(Vídeo) Goodbye by Andy G.

26 setembro 2011

ESCADARIAS


Com seus úmidos cabelos rigorosamente alinhados para o sul de sua cabeça, descia melindrosamente os degraus da escadaria de madeira do antigo e sombrio casarão. Descobrindo pé após pé o que há muito havia assistido: o interior de sua casa. Tinha a sensação de que caminhava ao precipício, mas não abandonava o habitual sorriso de escárnio nos lábios trêmulos. Infantil. Reconhecia vagamente nas telas das paredes um rosto familiar e falecido já esfarelado, embora, sem conseguir recuperar qualquer lapso de lembranças referente ao nome da imagem doentia, de mulher pintada de húmus por algum artista devasso da provável época. Passou algum instante frente à imagem lúgubre e tornou a descer as escadarias, analisando a louça também exposta nas paredes, eram pratos, sopeiras, colheres de prata e guardanapos bordados com as iniciais de sua identidade. Levava a mão até o queixo tentando em vão desvendar o mistério. A cada degrau descido era como se a escadaria fosse aumentando gradativamente para os fundos dos pés. Prolongando uma estranha lembrança. Formando uma imagem angustiante da previsível jornada que enfrentaria até chegar ao afastado término da descida. Trazia nas mãos seu chapéu de abas flexíveis amareladas do tempo e ao braço escorregava seu inseparável casaco reportado. Faltava-lhe uma bengala, que provavelmente havia deixado junto as suas fotografias em cima da cama. Abruptamente livrou-se dos pertences que carregava nos bolsos e nas caixas empilhadas em seu quarto e invadiu o corredor decidido explorar o andar inferior de sua casa. Não conseguia lembrar de quando havia sido condenado à solidão no terrível espaço cinza que cresceu sem ver as vozes que ouvia. No corrimão sentia um cheiro de esquecimento e esparramava os dedos confiante e persistente, acompanhando as sinuosas curvas da madeira seca presa aos balaústres talhados também com as iniciais de seu nome. Ou com o que supunha que fosse seu nome. Trajava uma calça de cor preta que encalorava suas pernas e uma camisa de botões toscos costuradas de maneira amadora e sobre ela um suspensório com cor de palha fazendo combinação com seu chapéu. Sentia suas frontes molhadas de suor. Encostou-se junto à parede para descansar seu corpo num breve tempo até ser desperto por uma lufada de espíritos zombeteiros com aroma de saudade. Mesmo sendo prazeroso escapou numa gambeta até alcançar mais alguns degraus abaixo. Livre do susto olhou para cima na esperança tardia de rever a confusa imagem que o atropelou. E descia agora trazendo a cisma esquizofrênica do encontro rápido e pavoroso. Atordoado e cansado insistia em chegar até o plano inferior do casarão para reconhecer o que fora impedido de viver. De repente começou a ouvir um delicado dedilhar, sem força, docemente, uma melodia de Ravel em piano e soube de imediato reconhecer a canção. Sorriu. Podia esperar vida logo mais, e ao invés de descer desenfreado para se aproximar do instrumentista, mergulhou num silencioso e feliz devaneio regendo um balé de dedos no ar. A música o acalmava enfim, ainda faltava muito, sabia. Embalado pelo clássico encanto sonoro descia ainda mais, observando a decoração das paredes. A infinita escadaria era cercada de paredes. Deteve-se um instante em frente a uma ilustração que lembrava o álbum 20 poemas de Amor Y Una Canción Desesperada de Pablo Neruda e entristeceu-se com os olhos azuis e aflitos da figura. Um pouco mais para a esquerda estava uma gigante réplica de O canto da mesa de Fantin-Latour onde o pintor representou Verlaine ao lado de Rimbaud ainda jovem e esforçou-se para decifrar o enigma daquelas obras, resmungou baixinho: Romances sans paroles. Seguiu seu percurso obstinado sem se importar com a Princesa Camundongo também exposta na parede até que sentiu esmagar cacos de vidro com suas botas grosseiras, eram lascas de taças quebradas borradas de vinho seco ou sangue. A partir desse momento começou a perceber que os degraus eram forrados por um empoeirado e puído tapete, talvez e provavelmente, estivesse chegando até a sala. Chamou sua atenção o extraordinário lustre no alto da escadaria com várias lâmpadas apagadas e a ausência de alguns pingentes que formariam um respeitoso girassol. Um tanto burguês demais pensou, mas de grande impacto visual sem dúvida. Alegrou-se instantaneamente ao reconhecer uma fotografia numa pequena moldura, idêntica a uma outra que havia deixado junto à bengala em sua cama. Na fotografia estava uma nostálgica família sentada num banco de jardim, sorrindo pateticamente para a câmera. Tratava-se de um velho senhor ao lado de uma senhora, que o fez lembrar da esfarelada imagem encontrada no alto da escadaria e ainda mais uma criança vestida com suspensórios e botinas, muito semelhante ao que vestia, embora em tamanho menor e, ao fundo, um casarão que bem poderia ser o mesmo que escondia essas intermináveis escadarias. É certo que ficaria durante muito tempo contemplando a fotografia não fosse o cessar inesperado do piano. Desceu afoito e com pressa para diminuir a distância entre onde estava e a sala de onde certamente seria o fim dessa viagem sombria de recordações adormecidas ou esquecidas ou ainda desconhecida. Pulava dois em dois degraus, para amenizar o tormento e apressava-se desesperado até que o piano voltou a tocar e mais uma vez soube identificar a melodia. Uma melodia de Satie dessa vez. A música tinha um efeito tranqüilizador que o fez recuperar um pouco de ar e seguir com a descida indefinida. A mancha de vinho seco ou sangue ia ficando cada vez mais evidente, em quantidade visivelmente assustadora. Era a confirmação de que havia acontecido uma terrível tragédia e mesmo sem saber definir de quem era o sangue ou quem havia desperdiçado tanta bebida, prosseguiu seu caminho irritado com o término imprevisível. Tanto desceu que uma claridade foi se aproximando numa anunciação de liberdade. Exausto e com muita idade soube reduzir a velocidade para aproveitar os últimos degraus, extasiado com a canção forte do piano explodindo em seu peito, parou. Voltou-se para trás e numa tentativa de registrar o inexplicável mistério fechou os olhos profundamente e chorou. Seu quarto, seu exílio deixado lá no alto era passado. O fim do medo. A covardia rompida. Um quase relembrar de fatos perdidos na caixa branca de sua memória. O rompimento definitivo da exclusão. Do abandono. Desceu tanto para subir novamente, em outras circunstâncias, em outras escadarias. De uma outra e nova vida. Abriu lentamente os olhos cobertos de lágrimas e calculadamente virou-se para saltar o último degrau. Alcançou a sala, enorme. Com seus móveis escondidos por lençóis, exceto o piano que descoberto e de tampa fechada continuava tocando sem que houvesse um instrumentista. Sorriu. Não fez questão de entender. Sans paroles... Caminhou pé por pé, coreografando com os dedos no ar Mozart ou Chopin até uma majestosa porta. Trouxe até seu peito as fechaduras e finalmente reconheceu a rua. No jardim estava o banco todo desfeito. Sentiu cheiro de saudades. Respirou fundo e deu início ao novo percurso, uma estrada com uma linha de fim como a do mar. Misteriosa. Já era velho e solitário e seu destino era tão certo quanto seu passado. Infeliz. Seus passos arrastados o levavam para sua morte. Chorou. Livre do casarão ou próximo de voltar, seguiu sem perceber que ao fundo então, o girassol acendeu-se.

Andy Gercker
14 de janeiro de 2008.

22 setembro 2011

ÚLTIMA VISITA


Obrigado por entre outras tantas coisas você ter sido capaz de vir me ouvir. Obrigado por arrastar sua cadeira até bem perto de mim e descansar seu pesado casaco no colo e pedir para baixarem o volume das vozes no corredor e por ter reduzido as luzes também para que eu me sinta um pouco mais confortável e seguro e mais calmo num cenário menos hostil. Obrigado por olhar profundamente dentro dos meus olhos a ponto de me deixar trêmulo com tanta atenção. Obrigado por não zombar de mim nesse estado tão deprimente triste e adoentado. Obrigado por ter vindo com flores e obrigado por não ter recusado esse meu último aflito e desesperado convite.
Agora diga que estou menos inchado e que já não estou mais com aquela cara de choro e que meus olhos deixaram de ficar vermelhos e que deixei escapar que estou um pouquinho mais feliz por você ter vindo até aqui e diga também que talvez seja hoje que eu finalmente consiga dormir.
Pronto.
Podemos começar.
Será que devo deixar você falar tudo o que quiser se é que tem alguma coisa que você ainda queira me falar se é que existe alguma coisa que eu ainda queira saber ou se é realmente importante que você fale ou que apenas continue assim me olhando.
Será que devo parar de pensar tanto nas palavras que desejei ouvir acreditando que me trariam mais conforto do que esses seus olhos fixados nos meus?
Minha sede de atenção quase faz com que eu não perceba o quanto esse pequeno e novo instante inaugurado entre nós é tão confortante e o suficiente para não esperar mais nada e também até esquecer de uma vez por todas aquelas palavras ensaiadas e que agora já não teriam mais tanto sentido se as fossem ditas.
Eu estragaria esse momento que jamais cheguei ousar a pensar que pudesse ser tão tão antes de. Se acaso eu inventasse de esparramar todas aquelas mágoas tolas e quase infantis com certeza quebraria grosseiramente isso que me oferece assim tão docemente.
Pois sim vou lhe falar que saltei meus pés do chão desde que te vi pela primeira vez e que de lá pra cá desaprendi como se devia andar com os pés firmes na terra.
Não. Você não teve culpa. Não. Você não foi responsável pela minha febre e loucura. Não. Você não devia ter feito nada diferente. Não mesmo.
Eu que me apressei e esqueci ou nem sei se quis pensar que talvez você não estivesse para mim. Eu apenas voei. E lá do alto conheci tanta coisa vi tanta coisa e chorei por tanta coisa que não mais aguentei me desequilibrei caí e adoeci.
Eu tentei ser mais a cara do mundo de todo mundo para ver se me machucava menos e tentei não resistir mas não consegui deixar de ser esse que acorda e se espreguiça como se saísse de um livro de capa amarelada e roída pelas traças e pelo tempo. Eu lamento tanto por não ter conseguido fazer com que os outros e em especial você percebesse que basta saltar com um pé para voar nesse outro mundo com sabor de algodão doce que escolhi para viver.
E o mundo daquelas caras do mundo se voltaram contra mim e me zombaram e me atravessaram e me deixaram aqui deitado sozinho banhado em forte luz clara de lampada fria e com essas vozes sussurradas que me assustam por dias e dias. E se eu não fosse obrigado a ter vindo para cá daria no mesmo agora estaria mofando com meus casacos velhos e cigarros de filtro amarelo digno de uma surra numa poltrona velha em casa.
Aí depois que saltei no ar e fiquei vagando de bar em bar cabisbaixo e moribundo e um tanto azedo no cheiro na cor e no humor tão desolado e agressivo que me laçaram e me trouxeram amarrado por um barbante como se fosse uma pipa triste.
Desculpa se é que me permite pedir desculpas por te contar essa história de um aventureiro encantado que viu a terra despencar debaixo dos pés quando soube que não teria mais o seu grande amor e não teria mais onde aterrizar.
Então insisto em dizer obrigado por não ter recusado meu convite por ter vindo me olhar como a tempos não me vêem e obrigado por não ter falado nada e ter me deixado narrar assim sem parar sem respirar essa história que não ensaiei e que não sei devia contar e obrigado por ter pedido para baixar as vozes no corredor e ter colocado essa música bem a nossa antiga cara e ter feito esse truque com as luzes aconchegando o quarto e me esquentando um pouco.
Não sei mais o que dizer não sei se você espera que eu ainda fale mais alguma coisa só sei que está bom esse pequeno instante e que infelizmente já está acabando. Não vou pedir para você voltar por que sei que não tenho mais esse tempo assim como não vou esperar que você salte e venha morar comigo nesse lado de cá porque não tenho esse direito. Mas preciso que saiba que estou um pouquinho mais feliz por você ter vindo me encontrar e obrigado e muito obrigado por ter me deixado desabafar essa fábula que vivo desde o dia que me você me deixou. Nada vai mudar depois que tudo mudar. Nem nada mais vai acontecer senão eu sumir depois que você sair e fechar a porta e pedir para que desliguem esses fios que anestesiam meus braços. Obrigado por ter vindo me ver antes de apagar e por favor mas por favor mesmo não me esqueça depois disso acontecer.

Andy Gercker
Curitiba 17 Maio 2009

30 agosto 2011

CINZEIRO, FUMAÇA, UM POUCO DE VIDA E BARULHINHOS


Ela estava sentada no canto daquele bar fétido e triste namorando um copo de bebida forte e amarga e com um cigarro queimando no cinzeiro e a fumaça criando uma nuvem a sua frente. Ela estava com seu vestido preto discreto e com suas belas pernas. Cruzava-as sensualmente, a mostra para quem as quisesse ver, mas ninguém as via, pois estava sentada no canto desse bar. Um pouco bêbada um pouco triste um pouco só. No outro lado do bar o garçom virava o disco da Billie Holiday na vitrola antiga, tocava Lover Man e ela sorria chorando. Exausta ouvia o som de suas unhas no copo velho e raso de bebida. Estava bom ali, embora, não quisesse estar ali. Queria estar em outro lugar, mas preferia ficar ali mesmo. Não queria pensar. Estava tentando, nem sei se estava tentando. Mas se pudesse, pararia de pensar. O ruído da agulha na vitrola com suas unhas no copo formavam um som. Encostou o copo bem próximo ao rosto e se esforçou para que uma gota de lágrima caísse no copo e que o som da gota junto com suas unhas no copo e a agulha na vitrola pudesse fazer um outro e novo som, e assim, sonâmbula, foi percebendo cada pequeno som que junto de outros iam criando um novo burburinho. Muito longe conseguiu distinguir um leve apito de trem e sorriu. Seguia bêbada e triste. Coreografando barulhinhos de uma outra realidade. Percebeu uma torneira pingando a tosse do garçom compassada o rangido da porta do banheiro indo e vindo. Ia descobrindo um lugar que nunca havia imaginado, um mundo anônimo de pequenos sons tilintando. E ouviu os cadarços de uma criança entrando correndo para comprar balas no balcão e as marteladas num prego algumas casas dali e de pássaros pousando na janela para se alimentar de farelo de bolo deixados pela cozinheira. Era um bar que funcionava como café durante todo o dia e ela estava sentada no canto desse bar fazia tempo, cigarros acendidos e não tragados se acumulavam no cinzeiro e estava tão calada sofrendo e sorrindo em silencio escondida no canto do bar que o garçom esquecia de oferecer outra bebida ou quem sabe se importar com a aparente desilusão dessa moça ou mulher exuberante e falecida na poltrona vermelha e rasgada desse lugar que não queria estar, mas não sabia onde gostaria de estar. Billie Holiday já devia estar cansada de tanto rodar. Através da persiana tonta pode notar que o dia era findo e tantos novos ruídos poderiam vir com a noite e ouviu atenta uma cigarra rouca cantar agarrada em alguma árvore, talvez encostada na parede do bar e viu a troca de pessoas, já não eram mais os mesmos rostos da tarde, eram tristes agora, como o seu. Olheiras e rugas buscando conforto na companhia de copos amarelados de bebida forte. Estava sensualmente sozinha e buscando minuciosamente outros barulhinhos para decorar esse novo mundo. Lânguida e melindrosa escorregava suas pernas roçando a poltrona, tentaria excitar alguém se fosse vista. Nunca era nesse mundo que a deixava invisível perdida em sua tristeza de algum motivo que nem lembrava por que a deixava tão desiludida e infeliz jogada num canto de bar, bebendo a mesma bebida desde cedo atenta a minúsculos ruídos de uma outra esfera. Imaginou-se vagando em outras ruas de um lugar criado por ela embalados pelo jazz rouco da cantora cansada na vitrola, ouvindo e descobrindo um formidável terreno de sons nunca percebidos. Lembrou de uma passagem num livro de Robert Arlt... Vida sos linda, vida... Sabes? De aquí en adelante adoraré a todas las cosas hermosas de la Tierra... cierto... adoraré a los árboles, y a las casas y a los cielos... adoraré todo lo que está en vos... además... decíme, Vida, conociste vos alguno que fuera como yo? E sorriu por um instante e sem chorar dessa vez. Ouviu o garçom gritando feliz: seja bem vindo Jack e pensou que pudesse ser Kerouac e se fosse o convidaria para sentar-se próximo e cruzaria ainda mais suas pernas sensualmente, que a esta altura já estariam trançadas de tanto as cruzar durante à tarde e contaria em voz suave sua história e sua angustia e sua experiência de ouvir sons de uma outra vida tão presente e secreta, que ele anotaria afoito para compor um novo livro. De súbito levantou-se, deixou uma nota amassada sobre a mesa embaixo do cinzeiro cheio e saiu no seu vestido preto e tão discreto quanto sua presença nessa tarde nesse canto desse bar fétido e triste. Na saída antes de abrir a porta olhou-se no espelho ajeitou o vestido levantou os seios jogou um sorriso teatral no rosto e saiu perdendo-se entre tantos pela rua. A vida a chamava enfim.

Andy Gercker - 13 de Novembro de 2007.

04 julho 2011

XERETEI

Parei pra rever meus amores. Visitei páginas sociais. Vi fotos. Vaguei alguns instantes em cada um. Comecei lá de trás. Relembrei aqueles primeiros terremotos. E quer saber? Foi legal, foi muito legal. Dessa vez não doeu. Curioso não é? Aquele primeiro primeiro foi quase divertido, sim, por que algum resto de compostura ainda mantenho. Senão diria... um beijo baby, você esta bem pior do que desejei que terminasse e olha que lhe desejei uma maldadezinha levinha levinha, mas você me surpreendeu. Aquela sua vaidade que te saltava os olhos por não caber em você acabou te transformando em algo que hoje beira o divertido... but, a imperdoável e avassaladora elegance avecuou-se simplesmente ao manto da mais pura decadance. Não! Mas você esta bem. Bem relacionado. Bem enganado. Bem antiquado. Bem longe que é o que mais me tranqüiliza. Estamos bem. De bem. Amem. Passando pro segundo grande tsunami antes que eu caia na farra e solte uma boa do primeiro abalo. Ah esse segundo. Que vai passar longe desses escritos. Nem pode imaginar, pois imaginação foi o que sempre lhe faltou. Senão. Quem sabe?! Nesse momento fui mais cauteloso, tomei ar antes de visitá-lo. Era arriscado e no fim acabei me saindo super bem. No entanto estou cá agora escrevendo. Um beijo pra ti também baby. Baby. Sauro. Depois... Depois acabou. Fui de poucos amores até agora. E também parei pra rever amores e não aqueles pequenos torpores. As desatenções. Raspei a panela. Vi tudo. Futuquei tudo. Xeretei. Aí antes de fechar o canal social ampliei a ultima e mais recente aposta. Afinal o que importa mesmo é olhar pra frente. Pro novinho em folha. Ouvindo Vera Lynn pra escrever, comendo chocolates importado, com a foto do mais puro desejo de amor ampliado em frente aos olhos enquanto chove nesse domingo de inverno carioca. Meias no pé e vontade de voar.

Andy Gercker
Rio, 03.07.11

16 junho 2011

UM CONTO DE DUAS VIAGENS

- Estou aqui, mas não queria e não devia estar.
- Sempre falando a mesma coisa.
- Eu sei que é perturbar um pouco, mas você podia me servir com um pouco mais de chá?
- Sempre achando que tudo é pouco.
- Nem isso você seria capaz de fazer?
- To cagando pro mundo mesmo!
- E ela continua falando como se eu não estivesse.
- Ahhhhhhhhhhhhhhhh
- De repente grita.
- Não tem ninguém aqui.
- Pra ela eu não estava aqui. Seguia tranqüila.
- Ninguém mais precisa de mim? Ninguém precisa de mim! Bye bye.
- Eu me senti sobrando então parti.

Andy G.
Sab 19.03.2011.

NEM VEM

Ele saltou dos teus olhos e você nem viu? Todos tiveram a mesma impressão e você sequer notou? Eu estou entendendo as coisas erradas ou de fato você está querendo me confundir? Ele saltou dos teus olhos sim que eu vi e tenho a certeza de que não me enganei. Eu jamais me enganaria, eu jamais me confundiria. Eu jamais. O que saltou dos teus olhos que eu nem vi? Que você fingiu, fingiu. Eu não consigo te entender. Você mistura as coisas. O erro é a frustração do certo. E não adianta querer me fazer saltar os olhos o que dificilmente sairia dos teus.

CHORE NEGA, OU SAMBE!

Eu só não me mato por covardia mesmo. Sou incompetente pra isso. No fundo talvez seja preguiça mesmo. Preguiça de me matar. Só de pensar já me deixa aborrecido. Porque na verdade eu deveria ter coragem pra tanto. Deveria. Se você faz o teste do espelho e se vê e se descobre, se lhe é revelado quem você realmente é, sem mascaras, sem ilusões, a carne, o dentro e muito o fora também, tudo, tudo é motivo suficiente. Ou, só isso já é o suficiente. Porque tem mais. Ah, tem mais! Debaixo desse tapete tem poeira demais. O que me salva é minha cabeça que me distrai vez em quando e me deixa atordoado, sem me deixar espiar que tudo isso é verdade. Não foi dessa vez. Mas me apego a um santo por dia agora, me penduro no rabo de saia de cada entidade. Assim vou me confortando a cada dia que passa deixando pro natural que resolva e escolha a hora certa e de menos dor. Então invento coisas: canto e danço muito por exemplo. Sozinho. Em casa. À noite. Depois de uma tacinha de vinho. Com uma musiquinha que eu tenha escolhido. Ou, outra qualquer. Que esteja tocando no radio no momento. Às vezes escrevo também e essa é uma dessas vezes. E por nunca ter sido de fato um escritor que publica o que escreve acabei me desleixando um pouco e quase não mais visito esse campo. Mas espero que por pouco tempo. Ah, eu compro roupas também. Me entorpeço também. Pergunto a mim mesmo agora: O que eu estava falando? Já esqueci, era tolice, estava querendo ser maior do que aquilo que me propunha, queria ganhar, ter, adquirir, possuir algo ao invés de cuidar daquele que não tenho dado muita importância ultimamente. Eu. Talvez eu não me mate por isso, porque não é preciso se matar. É preciso se amar. É tão simples. A parada é sinistra e irreversível. Chore nega ou, sambe! E tem mais uma coisa .........(Páginas em branco)......... Desiste, isso conto não.

VOLTEI

Eu não sei o que estou fazendo aqui. Mas sabe quando você tem a sensação de que está fazendo a coisa certa? Eu não sei explicar porque voltei. Hoje de manha quando acordei senti uma falta enorme de você. Uma saudade como eu nunca tinha sentido antes. Fiquei sentado na beira da cama... atordoado. De repente aconteceu tudo muito rápido, lembrei do seu cheiro e dos mimos que você fazia pra mim. Lembrei de como minhas risadas eram altas quando estava ao seu lado. Senti uma falta enorme dos seus olhos em cima de mim quando me perguntava: você esta bem? Ninguém mais me perguntou se eu estava bem. Ninguém mais se importou comigo como você. Eu sei, é muito triste tudo isso. Eu não devia estar aqui, não devia ter voltado, não devia “ter te” desrespeitado. Nem vou pedir desculpas porque como você mesmo diz depois de feito de que adiantam as desculpas, formalidades tolas que não dizem nada. Desculpas servem apenas pra consolar o culpado e nesse caso o culpado sou eu, tenho certeza disso, e não quero ser consolado. Só espero que você não me mande embora sem antes ouvir tudo o que não sei explicar, sim, porque não sei o que estou fazendo aqui. Mas sabe quando você tem a sensação de que está fazendo a coisa certa? Eu fiquei com essa frase na cabeça o dia todo, desde o instante que levantei da beira da cama, desde que joguei algumas roupas desajeitadas na mochila, que comprei as passagens pelo celular enquanto chegava ao aeroporto, desde que entrei na nave e decolei até chegar aqui, eu vim com essa frase na cabeça e saberia que começaria essa conversar com você a partir do momento que disesse, completamente envergonhado, mas intensamente cheio de verdade: Eu não sei o que estou fazendo aqui. Mas sabe quando você tem a sensação de que está fazendo a coisa certa?
...
(o outro individuo desmaia nesse momento)

Andy Gercker RJ Maio 2011.

OPS

sou um moço de trinta de anos que se esforça diariamente pra livrar-se dos monstrinhos criados com o passar do tempo. pra me tornar uma pessoa melhor, sei lá, uma pessoa + interessante. sou daqueles que cria trilhas sonoras pro dia e seja andando ou pedalando estou sempre com meus headphones pendurados. vejo as coisas nas ruas por ângulos cinematográficos. tudo me interessa, as cores, as formas, o tempo. gosto tbem de gravar cds com musicas que me deixam feliz e depois apenas esquecer esse cd no metrô, pra que de repente as mesmas musicas possam deixar a vida de outra pessoa um pouquinho mais feliz. gosto de ser assim. gosto dos pequenos segredos, surpresas e misterios que se escondem no dia. prefiro ler os autores mortos. sou daqueles que acorda todos os dias pensando: Por que não moro no deserto de Atacama, no Chile, onde é considerado o melhor lugar do hemisfério sul para os astrônomos? deve ser lindo, lá. não entendo nada, mas me fascino com tudo. sou ator, ou pelo vivo disso, pago minhas contas exercendo o oficio que escolhi. sou feliz por isso. moro na praia e quase não a freqüento, sou de pele branca, bem branca e tbem gosto da minha pele assim. elaboro mentalmente uns vinte projetos por dia e executo muito pouco deles. quero fazer muito mais do que já fiz, e ás vezes, vejo que já fiz muito e isso me deixa ainda mais feliz. tenho que produzir e ter vida (tempo) pra produzir. no meu tempo. tenho que descobrir o pulo do gato, pra me deixar feliz, e é atrás dele que corro diariamente, enquanto tento espantar esses pequenos monstros que adquiro a cada dia.

Andy Gercker Junho 2011 RJ

2050

Meus netinhos, o vovô é do tempo em que pessoas do mesmo sexo não podiam se casar legalmente, não era legal. Sim, o vovô sente muita vergonha de ser daquela época, em que eles eram tão atrasados. Não, não, vocês não fazem idéia, aconteciam barbaridades, cada história, mas hoje o vovô não pode contar. Amanhã nós iremos pra Saturno logo cedo e vocês sabem o quanto o outro vovô de vocês é rígido e chato com horários. Não podemos nos atrasar. Boa noite meus queridos, vou apagar as luzes e boa noite pra você também Apolo 16.

Andy Gercker RJ Maio 2011

11 novembro 2010


É muito simples meu caro amigo, arraste-me pelo cabelo até a sarjeta mais próxima, a valeta mais imunda que encontrar e livre-se do meu corpo por lá. Se você não sabe o que fazer comigo agora, foda-se. Mas arrume um jeito de resolver essa merda que você se meteu. Pense numa maneira de limpar essa cagada que você conseguiu fazer. Confesso que mesmo sendo a mais fudida nessa história toda, ainda assim acho graça, assistir essa sua cara de apavorado machão que não consegue sequer desarmar os ombros.
(esse não é um relato de uma defunta, alma penada ou qualquer tipo de espírito tentando fazer contato, mas aquilo que falaria se pudesse)
Você pode me atear fogo. Tá certo que seria excessivo, performance gratuita, espetáculo desnecessário, além do mais a força do fogo com suas cores o impressionariam tanto a ponto de que você nunca mais poderia fechar seus olhos pra dormir tranqüilo. Fogo não, melhor não. E lançar-me ao mar exigiria uma exaustiva produção para realizar o “evento do desaparecimento” desse corpo que está jogado aos seus pés, que inclusive gostaria de pedir pra que não pisasse nos meus cabelos. Por obséquio.
Não tenho a intenção de irritar vossa senhoria, mas será que já existe algum palpite referente à conclusão desse ato tão gentil? De desfigurar minha cara, rasgar meu corpo e tirar o direito de criar minha filha que deixo para aquela minha mãe que não quis/não pode/ ou (mais sonsa ainda) não soube o que fazer comigo, exatamente como você nesse instante que não sabe também o que fazer comigo jogada a seus pés.
Embora eu tenha tido uma educação ordeira de um afetuoso pai que carrega nas costas ou na alma ou na consciência a acusação de ser um estuprador, mesmo assim, eu ainda consegui evoluir. Fui destemida. Com apenas minha beleza no bolso, trunfo que considerava suficiente para me levar a qualquer outro lugar exceto esse em que me encontro aqui. Garoto que nasceu e continuou pobre e perturbado que não teve pais, que fez fama e farreou na cama já decidiu o que fazer comigo? Vamos filho da puta, seja rápido, já se passaram alguns segundos e nada. Não quero ser a chata, não quero atrapalhar o seu fluxo de pensamento, mas acontece meu querido e prezado protótipo de ex futuro esposo, que feder é o que eu não gostaria. Se é que me permite o direito de algum desejo, um ao menos, porque se pudesse ter o privilégio de fazer três pedidos, além de não querer feder o segundo pedido seria o de pedir piedade para o pequeno anjo que já nasceu com seu passado sujo de sangue, pra deixá-lo ter a chance de não fazer jus ao nome do pai que carrega no seu nome também. Pra terceiro pedido eu peço com certa urgência pra que decida logo o que vai fazer com meu corpo, aqui jogada a seus pés, porra! (situação mais patética impossível). Perfeito. Ótima escolha. Chamar os amigos pra desossar-me. Sábia decisão, agora me enterre espalhada por esse sítio. Excelente. Depois de você esquecer as estocadas de farpado que levará no seu merecido cu pelo seu prato predileto (macarrão) prometo que arrumarei um jeito de brotar a cada primavera de meu Bruno.

Andy Gercker - ... 2010

05 novembro 2010

16 AOS 30

Ela sentou-se ao meu lado e sem que eu pudesse entender a ordem das coisas, de sentar-me e cumprimentar as pessoas e fazer aquela cara de ok me adaptei. Abruptamente fui surpreendido por duas mãos gigantes vindo em direção a minha cara na intenção de extrair um cravo. Não fosse meu reflexo preciso, estaria eu nesse instante deitado numa mesa de cirurgia tentando reconstruir meu rosto. Há dias eu vinha lidando com o sufoco de ter nascido na minha espinha uma cara. Sim, a essa altura eu já considerava a espinha como um ser digno de afeto. Ela, a espinha já estava morando na minha cara quase uma semana. Ela chegou tímida, bancando a sonsa e eu na minha ingenuidade ainda dei um creminho pra matar sua fome, pra não deixar de ser educado e quando menos esperava, ela se instalou, reinava absoluta e ordinária na minha face. Pensei: como me livrar desse diabo que encarnou em mim? Que mais parece parente pobre, daqueles que chegam e esquecem de ir (ou que fingem que esquecem, o que faz mais sentido). O que ela estava confundindo com um cravo nada mais era do que uma pequena casca, o ultimo vestígio da atrocidade que eu mesmo executei na manha daquele dia. Acordei e na frente do espelho do banheiro minhas pernas cambalearam, tive um breve e instantâneo infarto. Não deixei por menos, lavei minhas mãos e feito assassino feroz empurrei contra a parede aquele alien que tinha me invadido, tomado conta da minha cara. Foi rápido, seus excrementos e sangue ejetaram humilhados. Novamente minhas pernas cambalearam e dessa vez quase foi óbito. Um orgasmo. Detesto esse instante e não compreendo como tem gente que diz adorar, inclusive adora o som que sai. Não estou falando do orgasmo, que fique claro. É nojento. Abominável. Enfim, a intenção dela era ajudar-me ou apenas saciar seu desejo em beneficio a seu próprio prazer? De qualquer forma fui salvo pelo meu reflexo certeiro que impediu que acontecesse uma catástrofe maior. Ela nem desconfia da missa, a missa da semana, mas eu que literalmente senti na carne, agora me sinto aliviado por ter sido grosseiro ao boicotar a iniciativa dela. Eu preciso deixar de ter 16 aos trinta anos.

Andy Gercker - Rj 05-11-2010

22 setembro 2010

ATRAVESSANDO UMA NOITE TRISTE

Outro dia já era quase duas da manha e eu já fritava na cama umas 4 horas... Foi aí que resolvi levantar da cama, acender um cigarro e ouvir uma musica bem alto, uma musica daquelas que perfuram, de vozes rasgadas e de melodias ardidas. Foi o que fiz, acendi um pequeno abajur e sentei-me de cabelos armados e pijama esgarçado ao lado da janela da sala e ouvia a musica e tragava aquele gosto amargo do cigarro e tentava me concentrar em qualquer coisa menos dolorida. Quando eu já estava em alfa, em contato com qualquer mundo gelado e secreto e ausente de som... Explodiu alto na minha cabeça a maldita campanhia insistentemente, eu fiquei uns instantes antes de abrir a porta pensando no dedo da pessoa que devia estar cansado de tanto apertar o maldito botão. Eu, como dedo nessa hora me revoltaria, teria uma câimbra VOLUNTARIA, onde já se viu... Isso não é respeito ao corpo. Enfim, abro a porta e vejo a cara amassada de uma pessoa que eu nunca vi na minha vida. Uma senhora azeda meio verde com cara de puta. Puta de raiva não de profissão, porque mais parecia mesmo uma carola de alguma congregação de irmãs católicas espumando palavras do tipo: você tem idéia de hora seja isso? De que existem pessoas dormindo que trabalharam o dia inteiro e que acordam cedo porque tem uma família pra sustentar e não que são uns desocupados que não faz nada o dia inteiro e que por isso acham que tem o direito de ouvir uma musica como esta, alta desse jeito? Ainda se fosse uma sertaneja. Isso ela aos berros gesticulando na minha frente e eu ouvia toda essa balburdia, mas era como se eu não estivesse ali, eu via essa senhora como se fossem projeções de um clipe da Bjork todo estranho todo colorido, num susto eu voltei à tona quando ela disse qualquer coisa sobre chamar o sindico ou se ela era a sindica. Eu sou tão informado do que acontece do lado de fora de minha casa q ainda acho q o Sarney é presidente do Brasil. Eu olhei profundamente nos olhos daquela senhora e disse não, hoje não dá. Não posso, eu PRECISO ouvir a musica nessa altura, eu tenho o direito de sofrer sozinho a minha dor. Com a porra da musica que eu quiser, e no volume que eu quiser a senhora volte pra sua casa, entupa seus ouvidos com algodão, olhe pra cara de seu marido turrão e meio bêbado jogado na cama e proponha qualquer coisa erótica depois suporte aqueles peidos de repolho dele e durma. E me deixe, eu não tenho família não e também já me conformei com isso, porra. Eu NÃO tenho o que fazer durante o dia, portanto eu tenho muito pra pensar durante a noite.

Andy Gercker - alguma noite de 2008... por aí.

24 fevereiro 2010

SEGREDO DE GENTE GRANDE

Ele foi interrompido no meio de um sonho. Com o barulho de uma janela batendo contra a parede trazendo para dentro do quarto uma rajada forte de vento gelado. Um susto daqueles bem gigantes que fazem tremular as pernas. Como se tivesse levado um soco inesperado de um troglodita. Não foi bom. Ficou com aquele azedo na boca e aquela sensação de impotência. Podia ter sido um espírito que atravessou seu corpo de maneira ágil e apavorante. Sem entender o que tinha acontecido decidiu investigar. Procurou no escuro alcançar seus óculos, que estavam entre as páginas de um livro, calçou seus chinelos surrados e caminhou atordoado até encontrar a tomada para acender a luz de seu quarto. Vistoriou ressabiado todo o ambiente e não encontrou nada. Respirou profundo, meneou a cabeça pra livrar-se do mal estar. Foi até a janela e pela fresta da cortina espiou a lua. Sorriu. Era ela. Voltou para cama, guardou seus óculos e deitou-se de chinelos. Acomodou-se entre os travesseiros e ficou contemplando o céu de seu quarto. Estava salvo, o que aconteceu não se repetiria. Essa criança grande de chinelos na cama e luzes acesas permanecia com seu segredo guardado.


Andy Gercker 
Curitiba
24.2.10

05 dezembro 2009

SINCERAMENTE EU NÃO SEI

Eu não sei, sinceramente eu não sei. Não sei se faz bem, ficar assim em casa. Deitado no escuro e ouvindo essa música tragicamente linda. Talvez eu devesse sair de casa, mas também não tenho certeza se isso não fará com que eu fique ainda pior. Meus músculos estão descontraídos e minhas pupilas cansadas. Não quero e não posso ver claridade. A música precisa ficar assim, nesse volume pra que eu não suspeite que nesse momento existe pessoas percorrendo freneticamente as ruas daqui de perto, feito baratas em testes de laboratório. É assim que no fundo todos somos, baratas. Daquelas que passam por perrengues medonhos e que vivem constantemente em movimento pra não ter que ficar no mesmo lugar e não correr o risco de serem pisoteadas. Estamos a todo momento amaldiçoados, a cumprir sem pestanejar, em toda e qualquer circunstância, respeitar esse infeliz sistema que nos obriga viver feito boi. Bicho. Barata. Indefere realmente se fico aqui nesse estado letárgico ou se encaro a cidade pra ver o que acontece. E acontece. Acontece tanta coisa que me deixa sempre ainda mais frágil. Hoje eu fiquei perseguindo uma senhora de muita idade na rua. Não deixei que ela percebesse que eu a seguia, não pretendia ser descoberto nem assustá-la. Apenas me intrigou sua figura franzina e de imensa aparência de abandono como se a tempos não recebesse nenhum tipo de afeto. Ela era meio cor-de-rosa a senhora. Andava curvada pra frente e lentamente como se estivesse seguindo um exército de formigas. Estava tão compenetrada no que fazia que não poderia fazer nada pra se defender, caso fosse necessário. Eu decidi interromper meu percurso pra seguir essa senhora que chamou minha atenção. Tive tempo pra fumar, comprar água e ler as capas das revistas expostas na banca até que ela chegasse ao seu destino. Era um edifício antigo com tintas descascadas nas paredes e uma porta pesada que algum dia, provavelmente, já deve ter ostentado grande respeito e que hoje sequer é notada pelas pessoas que frequentam essa rua do centro da cidade. Ela, antes de entrar no edifício, voltou-se pra trás e olhou a rua mais uma vez, soltou um leve suspiro livrando-se do ar azedo do dia, tomou outra dose de vento, agora pra recuperar a lucidez que o sol a tinha tirado e entrou fechando a porta calmamente. Deve ter ido dormir a senhora cor-de-rosa. Ou deve estar deitada no escuro ouvindo músicas tragicamente lindas arrependida por ter saído hoje na rua. Eu vim pra casa. Nem lembro mais o que eu precisava fazer na rua e nem sei se quero lembrar, só sei que agora nesse instante eu não sei se devo continuar aqui nesse escuro ou se devo enfrentar a rua novamente pra deixar que mais alguma coisa aconteça.

Andy Gercker 05 dezembro 2009.

09 novembro 2009

PRA QUE HAJA UM NOVO FIM

Não faça eu me sentir um idiota. Não finja que não recebeu meus recados. Não subestime meus sentimentos e minha inteligência. Procure ser mais gentil. Um pouquinho de gentileza faz tanta diferença. Não custaria ter me ligado numa madrugada qualquer, não custaria ter deixado um recado na portaria, sei lá. Não custaria. Ou se é que custa realmente, porque ainda insiste em me fazer pensar que sim, que ainda pode existir algo saudável? Não consigo deixar de ser sincero. Penso que podia ás vezes me permitir ser o mais próximo daquilo que você esperaria que eu fosse. Mas não consigo deixar de ser como sou. Estaria me enganando e mais grave que isso, estaria te enganando, mostrando ser alguém que não sou. Gosto muito de você pra poder mentir pra você. Talvez eu não ceda mais e tampouco espero que você ceda mais também, acontece que desse cabo de guerra eu já estou cansado. Não alimento mais esperanças antigas, de que uma hora qualquer você possa despertar de sono e vir correndo dizer que me ama. Não espero mais isso, já ultrapassei essa fase de apaixonado alienado contaminado por uma paixão desenfreada. Já nem sou mais apaixonado pela idéia de estar apaixonado por você, apesar de você continuar incrivelmente apaixonante. E sempre foi assim que pensei. Nunca nutri um sentimento imaturo, irreal. Sempre soube reconhecê-lo atrás das máscaras. Prova de que isso é a mais pura verdade, é que agora depois de tanta história eu ainda paro e penso e escrevo pra você. Não tenho a intenção de transformar esse lamento numa tentativa ou numa missiva melosa. É só uma maneira que encontro pra me livrar dessa angustia que mora comigo. Que levo na mochila todos os dias quando encaro o dia. Eu como qualquer outro caí na armadilha do amor ou daquilo que imagino que seja amor. Não há nada de errado nisso. Sabemos disso. Não há culpa ou responsabilidade. Você pode pensar que seja egoísmo meu, que só penso em mim e em como seria bom pra mim, mas de verdade eu sinto falta apenas de um abraço ou de uma gentileza fresca. É possível hoje pra mim perceber que somos realmente de mundos diferentes e não se trata de horários ou profissões mas de lógica de pensamento. Caminhamos em direções opostas e sinceramente não sei se é o que espero pra mim. Ter ao meu lado alguém que está tão distante do que acredito. Quantas vezes fiz sinais, alarmes escandalosos pra você perceber que nessa trilha que desbravo há tantas coisas fantásticas que só te fariam bem. Pode me rotular como egoísta agora, é inevitável e até acho graça disso. Reconheço minha petulância de achar que o que eu vivo e vejo e acredito seja bom pra você. Acontece que depois do pouco que te decifrei percebi que um pouco daquilo que repito metaforicamente faria de você alguém mais feliz. Eu sei que você procura por uma felicidade leve como eu ou qualquer outra pessoa procura. Enfim, não quero me desvirtuar do meu pensamento. Também não sei te falar da ordem dos meus pensamentos até porque ordem é a última coisa que aconteceria se tratando do que penso. É essa confusão do que pensar e sentir que me faz escrever. Eu sempre tenho uma necessidade de concluir tudo que acontece comigo e por não ter mais competência pra lidar com história inacabada que me vejo obrigado a tomar uma atitude. Diga qual o melhor dia pra você que eu irei encontrá-lo. Não pra chorar ou pedir que me ame, mas pra eu consiga falar palavras que estão vencendo dentro de mim. Gostei muito de você pra deixar tudo evaporar assim tão descuidadamente. Não prometo amizade, não prometo mais amor, só posso lhe oferecer minha mais sincera verdade e garantir que depois da emoção que me causou só lhe devo uma explicação. Sarei daquelas velhas mágoas. As velhas mágoas estão curadas. Pra que não fique fagulhas de sentimento espalhadas pelo mundo nem que as palavras que devem ser ditas escapem assim por fragmentos de conversas. Preciso falar com você, de frente, pra entender definitivamente que não preciso mais de você. Nada acabará e isso seria impossível, mas me conhecendo do jeito que sou, mereço fechar essa porta pra poder abrir aliviado o quanto antes todas as janelas. Encontre um motivo que não lhe incomode e diga o lugar que irei te ver pra não mais te ver.

Andy Gercker
07 novembro 2009.

16 outubro 2009

UM TAPETE VERDE DIZ TUDO

Eu não entendo a pressa. Pra ver gafanhotos na rua? Sua mãe chama de esperança? Só porque são verdes? Que óbvia é sua mãe. Nunca me apresente, eu sou capaz de corar. Se você prestasse um pouco de atenção iria perceber que a última coisa que eu queria nesse momento era ter que levantar dessa cama vestir um casaco e sair nesse frio pra ver gafanhotos na calçada. Podíamos transar, estourar mais pipoca, ver o que está passando na televisão, mas não, vamos levantar no meio da noite, congelar a ponta do nariz, correr o risco de tomar um choque térmico pra ver alguns pequenos gafanhotos verdes na calçada. Não fosse sua maldita incontinência urinária, nada disso estaria acontecendo comigo agora. Você não teria visto pela janela do banheiro que a calçada está forrada de gafanhotos e eu ainda estaria debaixo das cobertas. Eu posso ser preso se alguém me ver assim de cabelos armados com esse pijama indecente e esse tédio todo. Não insista tanto, não percebe que estou cedendo? Você acha? Você não viu nada ainda. Se acontecer de eu pegar um resfriado aí é que você vai ver. Todo esse desespero pra ver gafanhotos na calçada. Isso o que está acontecendo comigo é perfeito depois de um dia infinito que eu tive. Eu sozinho hoje tomei umas três garrafas de café pra aguentar o peso do dia e é por isso que estou tão irritado agora. Eu suspeitava que talvez tivesse que atravessar essa noite de olhos arregalados saltados para o teto, mas não imaginei que teria que passar frio e irritação no meio da madrugada pra ver os gafanhotos verdes que você viu pela janela do banheiro e que sua mãe chama de esperança. Não me apresse mais, estou me esforçando o máximo que posso pra ser o mais ágil possível. Você me olhando desse jeito até me assusta. Eu quero só ver como é que você vai retribuir todo esse meu esforço de sair da cama essa hora pra ver seus gafanhotos verdes. Eu tinha esquecido que o corredor até a porta é curto. Eu tinha esquecido que moro numa casa humilde. Eu esqueço que sou pobre as vezes, veja você que ironia. Depois que deito eu sou capaz de esquecer as coisas, algumas coisas, aliás, por falar nisso, você já me perdoou? Eu espero que sim, afinal de contas, eu não consigo mais conviver com essa sua indiferença. Pronto, pode abrir a porta, já estou bem agasalhado. Eu não acredito no que estou vendo. Um grande tapete imóvel e verde bem na porta de casa? Só pode ser alguma brincadeira de mau gosto de algum desocupado. São milhares de gafanhotos verdes espalhados pela calçada e em boa parte da rua. Milhares de gafanhotos verdes, que sua mãe chama de esperanças. Mas estão todos mortos? Entendi a pressa. Você com isso me faz entender que... as suas....

Andy Gercker 17 outubro 2009 (Ctba)

É. DECADENTE. ADÍOS

Arrume um jeito de me ajudar. Qualquer coisa. Me traga um livro com uma história bem bonita. Ou me traga flores. Me traga um sorriso. Um perfume ou um olhar. Sei lá, inventa algo. Um disco que ainda eu não tenha. Uma tesoura pra canhotos. Um cartão do oriente. Me traga uma sopa talvez. Tem café? Qualquer coisa. Qualquer coisa que você trouxer eu vou gostar. Uma música pra refrescar minha alma. Um solo de piano. Ou uma voz rouca. Sabonetes também. Refri. É.

Qualquer coisa. Eu já disse. Uma cartilha com informações. Um passo de balé. Chulé?
Dispenso. Talvez você possa cantar? Um lápis. E o que escrever se possa apagar. É.
Traga qualquer coisa. Depois a gente esquece mesmo. Um doce. Em comprimido.
Eu vou gostar. Uma camisa do Che. Um lençol térmico. Ou um abraço. Bom.
Seja Bom. Camarada. Não vai te custar. E vai me ajudar. Chá ou revista.
Algo pro paladar. Traga a Tv a pipoca e o Dvd. Tente me ajudar. É.
Decidido. Você é capaz. O único capaz. Tente rapaz. E depressa.
Senão vou acabar. Depois não se arrependa. Não vá chorar. É.
Me deixa triste. Implorar. Por qualquer coisa. Você parou.
Congelou. Não me ajudou. Ou? Nada. Pena. Adíos. É.
Fique bem aí. Me vendo sumir. Decadente. Adíos.
Que você sofra. Pode enfiar. Não há mais tempo.
Venha me beijar. Desejar sorte. Dizer tchau.
Pena. Eu não tenho mais como esperar.
Tente não esquecer de me cobrir.
Feche a porta depois. A luz.
Apague a luz. E adíos.
Se puder. Se der.
Ligue pro.
Sabe.
Né?


Andy Gercker 16 outubro 2009. (Ctba)

08 outubro 2009

DIALOGO A QUATRO MÃOS E DOIS CORAÇÕES

... logo depois que a embarcação partiu.


- Ouça, ouça essa música. É cafona, mas é bem minha cara.

Ele ouviu. Atento. Vagou por outras esferas do tempo. Pra encontrar sentido. E respondeu:

- O bom senso você não perdeu, é cafona sim, mas também não perdeu o bom humor, é que de tão delicadamente cafona, confesso, é possível até chorar... com aquele sorriso no canto dos lábios. Não sei, me fez lembrar uma noite de carnaval barato que passei numa boate de quinta. Onde naquele dia tudo mudou... em mim.
- Nossa. Fiquei emocionado agora.

Ele ri.

- É sério. Bom te encontrar num dia assim.
- Bom? A palavra é bom?
- Hunrum
- É. Eu sou surpreendente.....
- É mesmo.
- Minha maior e não tão reconhecida qualidade!

O outro sem palavras. Ri.

- Mas me explique, porque essa música cafona é sua cara? O que melhor te define nela? Fiquei curioso.
- Ela é cafona, bonitinha (falsamente modesto) E tem a cara de uma pessoa imatura como eu.

E ri novamente, talvez tentando disfarçar o que sentiu ao revelar um trechinho de sua secreta e intocável privacidade.

- Como você está?
- Estou bem!
- Que bom. Está feliz?
- Estou. Mesmo tudo tão agitado, estou.
- O que está acontecendo?
- Coisas boas... pessoas legais.... estou querendo ser melhor também... me reaprendendo!
- Que bom.

Bom? Ele usou a palavra BOM de novo?

- Fico feliz em ver você bem.
- Obrigado. E VOCÊ está feliz?
- Estou tranquilo.
- Estou tranquilo. É ótimo. Então que bom que você está tranquilo.

Fez questão de usar o Bom. Precisava. Comicamente vingativo.

- É chato um pouco, mas é bom sim.

Seria perseguição ou ele usou o Bom outra vez?

- Me permita um ditado: Não há tristeza que perdure nem alegria que nunca acabe....

Bem possível que a estrutura da frase estivesse comprometida. Mas a idéia foi dita.

- E assim é.

De repente a música volta sem avisar.

- A música começou tocar de novo... e agora fiz outra leitura... talvez eu tenha dito bobagens anteriormente.

Ele fala rindo:

- Eu adorei. A leitura feita anteriormente.
- Menos mal, como você não tinha dito nada... adquiri essa culpa.... mas tudo superado já.
- Mente brilhante.
- Será outra qualidade minha não tão reconhecida?
- Provavelmente.
- Estou me reaprendendo muito rápido desse jeito. E já estou ficando soberbo.
- Você sempre foi muito inteligente, se é que isso ajuda nesse momento.
- Ajuda sim, alimente meu ego por favor....
- Pois tenho vários adjetivos na manga pra você.
- Uau. Destile-os. E me encharque de coisa boa.
- Você é extremamente inteligente, sensível... se bem que as vezes até demais. Opa, sim elogios, Você é decente, tem bom caráter, romântico, LEAL, mal humorado e sim, isso é um adjetivo positivo. Você é bonito, porque o físico também conta. É criativo, divertido, simpático, mas só quando quer.
- Estou adorando.
- Tenho orgulho de ter você na minha vida

Uma leve pausa no tempo. Um pequeno silêncio para aquele que ouve. E o que falava continua:

- Talentoso. Você brilha no palco. Cresce. Cresce mesmo. E olha que entendo lhufas disso.
- E? quero mais...
- Cansei.
- Poxa. Mas adorei, muito obrigado, vou dormir bem durante uma semana pelo menos.
- Exagero. Você sabe disso tudo e ainda é pouco.
- Pena que certas palavras se atrasam e assim perdem a embarcação. Aí ficam ali, naquele espaço do podia ter sido e não foi.
- Pois é.

E abaixa os olhos.

- O que é isso? Sorria. Era isso que você queria.

Instante que merece uma reflexão. Não se trata de grosseria. É de fato.

- Assuma.
- Voltando ao estado natural.
- Eu?
- Sim. Brabo comigo.
- Não, não me entenda errado... acontece que deixo a acidez escorrer as vezes, me perdoe. Não esqueça que estou me reaprendendo. Tentando ser melhor. Ouça o que falo prestando atenção nos sorrisos invisíveis.
- Enfim.

Pensa rápido assim: Em... Fim. A caminho de. É. Acho que sim.

- Adoro você, sempre vou sentir isso!

Outro instante digno de reflexão. ...sempre vou sentir isso... Será sempre mesmo? Até quando é capaz de durar esse sempre? Silêncio, ele continua:

- Seja sarcástico, seja querido...

Anuncia que vai partir.

- Tenho que ir.

...

- Obrigado. Irei guardar suas palavras como um presente.

Ambos sorriem. Porque não resta outra coisa.

Em... Fim.

Andy Gercker - Curitiba 07 out 2009